Hoje trago-lhe uma história intitulada “Do velho se fez novo”, uma memória de quando a minha mãe reaproveitava tudo o que já não tinha uso para lhe dar nova vida.
#45 Do velho se fez novo
Na humilde casa da aldeia onde vivi em criança com os meus pais e irmãos, abundavam penúrias e escassez. Minguava quase tudo, e o que sobrava era agreste e desolador.
Do telhado gotejava água para o interior quando a chuva era abundante, e em dias de ventania o frio penetrava pelas fissuras na parede. A loiça quebrada não se deitava fora, consertava-se com grampos e pingos de solda, e os remendos no vestuário chapavam-se sobre outros remendos até as linhas não terem onde se fixar. Se não andávamos descalços calçávamos sapatos que já foram de alguém, ou então entalávamos os pés em socos escavados pelo meu pai em madeira de amieiro.
Tudo era reaproveitado. Tudo.
Numa época em que o conceito de reciclagem era desconhecido por toda a gente, em minha casa não fazíamos outra coisa se não reciclar, não por termos consciência ambiental, mas por necessidade.
Pura necessidade.
De trapos velhos como chitas e aventais, calças ou camisas em fim de vida, lençóis gastos e descoloridos, panos crus de textura áspera que foram toalha de mesa, tudo a minha mãe reaproveitava para cortar em tiras muito estreitas. Costurava as pontas para as manter ligadas e estriava-as até formar um cordão de vários metros, enrodilhando-o num novelo que se assemelhava a uma meloa madura.
Durante meses ia juntando novelos até encher um bojudo saco de chita. Na feira mensal que se realizava na vila, aparecia um tecelão com uma furgoneta para recolher os novelos. A minha mãe entregava o saco e uma certa quantidade em dinheiro e, na feira seguinte, o homem devolvia uma manta de trapos – assim chamada por causa da origem da matéria-prima.
Nas noites de inverno, aquela manta pesada e não muito quente, era mais uma peça que colocada sobre a cama nos ajudava a superar o frio trazido pelo vento.
Numa espécie de jogo eu e os meus irmãos entretínhamo-nos a identificar nas cores entrelaçadas da manta, a que original pedaço de pano ela teria pertencido: se umas calças, se uma camisa, se um avental da avó.
Anos mais tarde descobri que as mantas de trapos feitas em rústicos teares viraram moda de artesanato, exibindo padrões geométricos de certa beleza. Tinham deixado de ser apenas um mero aproveitamento de panos velhos, urdidos para revestir a cama dos pobres. Fui encontrá-las em apartamentos de famílias remediadas a servir de tapete ou passadeira, e em moradias de gente abastada, a revestir paredes como tapeçaria ou carpete no chão da sala.
Distante vai o tempo em que a minha mãe do velho fazia novo. Quando partiu para o Oriente Eterno, levou consigo a ancestral arte de dar vida ao que era velho. Dela guardo em doce memória uma manta velhinha feita de trapos, entretecida pelas suas mãos para meu conforto nas noites de inverno.

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