Hoje trago-lhe a história de “Um porco condenado à morte”, uma memória de quando eu espreitava para a casa do vizinho por uma abertura na parede.

#46 Um porco condenado à morte

Senti um sobressalto quando ouvi o porco ganir de pânico no quintal do vizinho. Corri para o buraco na parede e fui espreitar. Credo, o bicho recusava-se a cooperar, puxavam por ele querendo tirá-lo da pocilga contra a sua vontade. 

Os suínos que chafurdavam no comedouro quedaram-se a olhar para aquela violência sem um movimento de indignação, como eu os compreendo, a comida era abundante e o sacrifício não era o deles. Eram simples espectadores. 

Décadas atrás George Orwell escreveu o romance O Triunfo dos Porcos, uma alegoria sobre a ascensão ao poder de Estaline. Na Quinta Manor os animais explorados revoltaram-se, o agricultor foi expulso e os porcos que lideraram a rebelião instalaram uma nova ordem entre os animais.

No curral do meu vizinho ninguém se revoltou quando viram o suíno mais velho e mais gordo ser levado da pocilga para o cadafalso. O porco protestava aos gritos naquela sua voz de cerdo condenado, que sabe ter chegado a sua hora. De nada lhe valeu.

Eu tinha nove anos e nunca assistira à morte de um porco. Tinha visto abater galinhas e coelhos sem grande emoção, mas esbugalhei os olhos de espanto ante a cena do infeliz a resistir aos algozes. 

Os carrascos vieram cedo, juntaram-se no quintal para matar o bicho, figos secos e aguardente para ganhar coragem. Um matador deve aquecer-se por dentro para fazer a matança sem ponta de perturbação. 

No calendário há uma época que os porcos deviam temer, o mês de Dezembro, aquele em que são condenados à morte porque é inverno e o frio conserva a carne. Todos o sabem. Ignoro se o porco do meu vizinho detinha essa informação. 

Ele devia suspeitar quando o empanturraram de comida nos meses que antecederam a sua condenação, aquela fartura devia tê-lo deixado de pé atrás. Fora alimentado com hortaliças, batatas cozidas, fruta caída das árvores, milho, restos de refeições dos humanos, tudo envolto em generosas porções de farelo e água morna. Uma abundância suspeita.

Tinham-no engordado até ficar enorme, balofo, as pernas mal sustentando o peso. Desde as primeiras horas que grunhia como se pressentisse a faca que vinha a caminho. Trouxeram-no para fora mas ele resistia, guinchava que nem desalmado, empurrava, tentava voltar para a pocilga. Os homens puxavam pelas cordas que o amarravam, escorregavam na lama, praguejavam: raios partam o teimoso do porco!

Em casa do vizinho tudo estava pronto para realizar a matança: familiares, ajudantes, o cão, os gatos, todos expectantes e animados. Todos menos o porco. 

A fogueira no pátio estava acesa, a carqueja e a caruma para chamuscar o pêlo amontoavam-se abundantes, as cordas e o chambaril para pendurar o suíno de cabeça para baixo, estavam à mão, a banca onde ia ser imolado, também. 

Quatro homens suaram as estopinhas para içar o animal e deitarem-no de lado na banqueta; cada um segurou uma pata, o bicho berrava a implorar misericórdia. 

O matador tomou poses de cirurgião, deitou fora a beata entalada nos lábios, deu um gole no frasco de aguardente e fez tinir a faca comprida na pedra de afiar. Aproximou-se de cortante em riste como se empunhasse um bisturi. Num movimento preciso espetou a lâmina por baixo do pescoço até ao coração do suíno. Pelo grito lancinante aquilo deve ter doído, até eu me encolhi de susto atrás da parede. Um jorro de sangue vermelho-escuro correu do corte para o alguidar. Os gritos transformaram-se em gorgolejos e convulsões. Depois, sobreveio o silêncio. 

O porco já não era porco. Era carne.

Chegara a hora de barbear. Com carqueja e caruma em chamas os ajudantes envolveram o corpo do suíno para lhe queimar os pêlos. Com facas rombudas, pedaços de telha mourisca e água a ferver, os homens atiraram-se ao bicho e rasparam a pele até ficar escanhoada como se saísse do barbeiro, deixando-a limpa e rosada.

Ataram o corpo ao chambaril, espécie de cabide inserido nos tendões das patas traseiras, e içaram-no de cabeça para baixo, deixando-o pendurado a escorrer a linfa. Vê-lo naquela posição a fazer o pino sem vida, até eu fiquei tonto e nauseado.

O matador que também tinha artes de talhante, com um corte preciso abriu o ventre do porco de cima abaixo. As vísceras escorregaram para fora, fumegantes, para dentro do alguidar. Tudo se aproveitava, fígado, coração, rins, até os intestinos, limpos meticulosamente no ribeiro pelas mulheres, serviriam de tripa para os enchidos. Do sangue no alguidar, misturado com vinagre e sal, sairiam morcelas e sarrabulho.

Nada se desperdiçava.

Enquanto os homens desmanchavam o porco, separando presunto, toucinho e entremeada, as mulheres cortavam a carne em cubos. Temperavam-na com alho, colorau, sal e vinho tinto para encher os chouriços e pendurá-los em fiadas no fumeiro.

Pela abertura na parede por onde eu espreitava, chegavam-me odores de fumo, alho, especiarias, temperos de carne, odores de fartura e festa. Na casa do vizinho preparavam-se para sobreviver à dureza do inverno.

Do lado de cá da parede, na minha casa, continuávamos com a frugal sopa de hortaliças e broa, enquanto do lado de lá se grelhavam bifanas e fritavam torresmos na gordura. 

As nossas carências viviam paredes meias com a abundância alheia, espreitávamos pelas frestas e contemplávamos um mundo de fartura que não era o nosso, onde não éramos convidados, somente espectadores.

Aquele inverno foi de escassez e muito frio, eu saía de casa a tiritar para colher um braçado de erva para os coelhitos encolhidos sob o telheiro, os únicos animais que a minha mãe criava, não para os comermos – luxo interdito – mas para ela trocar por alguma mercearia com que intercalávamos a sopa na panela de ferro. 

Na minha casa nunca se ouviram grunhidos de porco, nunca aspirámos odores de presunto e chouriço para nos confortar nos dias de frio. Fantasiávamos, apenas fantasiávamos como se os tivéssemos na pocilga.

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