Hoje trago-lhe a história intitulada “Fumo a subir do vale”, uma memória de quando em criança eu acompanhava o meu pai para o ajudar a erguer o forno de carvão.

#47 Fumo a subir do vale

O cheiro a fumo e terra molhada perseguiu-me muito tempo depois de eu ter deixado a aldeia na Beira-Alta e o vale do rio Cavalos. Tinha dez anos, e o meu pai levou-me com ele para o ajudar a erguer o forno de carvão, numa jornada que ia de sol a sol. 

Saímos de casa com o canto dos galos, caminhámos pelos campos orvalhados até ao cabeço no Alto da Fontinha quando o nevoeiro ainda abraçava o vale. Do alto das penedias, descemos pelos socalcos bravios da encosta espinhosa, até lá em baixo, onde o rio Cavalos, afluente do Mondego, corria selvagem e em turbilhão entre os penhascos. 

O meu pai carregava o machado, a pá e a enxada ao ombro, e eu, com a pequena alcofa do almoço preparado pela minha mãe, seguia-o através dos caminhos estreitos de terra húmida. 

O vale tinha uma beleza austera naquelas manhãs frias, onde cada árvore pingando gotas de orvalho, parecia uma sentinela guardando segredos antigos da montanha. Caminhámos por carreiros de pedras soltas, agarrados às raízes dos pinheiros bravos que brotavam do solo como garras descarnadas, até alcançarmos a estreita língua de terra nivelada pelas cheias na margem esquerda do rio. 

O frio, a neblina e o fragor da corrente ensombravam o local. Para nos aquecermos e espantar a névoa, amenizei o sítio com uma fogueira que acendi sob a prega dum penedo. Entre os salgueiros e amieiros frondosos, havia árvores que as cheias de inverno arrastaram para margem, troncos mortos encravados entre os rochedos.

Com o machado, o meu pai foi cortando troncos de diferentes tamanhos e grossuras para serem empilhados no forno de carvão. Eu esfalfava-me a carregar os lenhos desde a borda do rio até à língua de terra plana. Alguns eram bem pesados para a minha idade, derreavam-me as costas e os braços, fazendo-me escorregar na ribanceira que subia da margem. 

Naqueles dias sem escola, os miúdos da minha idade brincavam, eu empilhava madeira com mãos de criança, mãos que tremiam de esforço e de frio, mãos endurecidas e calejadas precocemente.

A pilha de lenha no forno, ia lentamente ganhando feição e tamanho, e para o final, adquirira dimensões de um automóvel ligeiro. Amontoar os toros de forma ordenada, era um saber reservado ao meu pai. Para o ar circular na base do forno, ele nivelou o solo e escavou longitudinalmente um caneiro com um palmo de fundo. Sobre ele atravessámos os troncos, deixando à entrada os mais delgados para o fogo se agarrar, e os mais grossos a seguir, aqueles de onde sairiam os melhores bocados de carvão. 

Depois da lenha empilhada, chegou o momento de selar o forno com ramos, musgo e mato, para em seguida o cobrir com pazadas de terra, deixando em cada topo do caneiro, as aberturas para o ar circular e o fumo sair. Baldear terra do chão molhado foi uma canseira. O forno, escuro e volumoso ia tomando forma, e no final assemelhava-se àqueles túmulos de povos antigos, perdidos em certos lugares da paisagem.

O momento mais aguardado chegou com o acender do forno, dar-lhe vida, pô-lo a fumegar. Antes disso eu tive de encontrar acendalhas secas num chão ensopado de chuva. Percorri as encostas, gatinhei para debaixo dos arbustos mais cerrados onde a chuva mal tinha penetrado, e recolhi ervas, folhas, gravetos secos sob as pedras, cascas de árvore resinosas que o fogo havia de abocanhar. Sabia que sem boas acendalhas o lume não pegaria, e sem lume não haveria carvão.

Com o dia a declinar e as sombras da serra a cobrirem o vale, o meu pai ajoelhou-se no chão molhado, colocou as acendalhas na boca do forno e soprou as brasas. O lume foi-se arrastando, preguiçoso, os gravetos começaram a arder, a chama lambeu a lenha de entrada, entranhou-se pelas frinchas e agarrou-se aos primeiros troncos.

Pouco a pouco o forno ganhou vida e começou a fumegar pela abertura oposta. Com o calor a madeira havia de aquecer, ir perdendo água, transformando o material lenhoso em carvão. O movimento do ar no interior do forno tinha de ser na justa medida: muito ar, a madeira queimava e virava cinza; pouco ar, o forno apagava-se e a carbonização não ocorria. Com uma vara grossa o meu pai abriu na terra que cobria as laterais do forno, pequenos orifícios para permitir uma ventilação controlada.

Finalmente, já com a noite a ensombrar-nos os passos, deixámos a margem do rio Cavalos para regressar a casa. Subimos a tactear os carreiros, tão tarde que mal se via onde assentar os pés. A meio da encosta olhámos lá para baixo, mas tudo se esfumara no abraço das trevas, o único sinal que emergia das fragas era a coluna de fumo do forno de carvão, elevando-se preguiçosamente para o alto.

Derreados pela subida, chegámos por fim ao Cabeço da Fontinha, onde terminava a encosta. Aí deitámos um derradeiro olhar à fundura do vale, mas as sombras da noite já se tinham apoderado dele. Uma névoa ia-se insinuando nas brenhas, e uma austera quietude tomava conta da noite. 

Por cima das nossas cabeças, só a lua nos acompanhava com a sua poalha de luz, guiando-nos os passos de regresso à aldeia, apontando os caminhos que começavam a orvalhar-se com os frios da noite.

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