Conhece a localidade da sua infância?

Recorda-se das brincadeiras e traquinices vividas quando era criança? Tem memórias da casa onde viveu? 

Hoje venho trazer-lhe o retrato da “Aldeia de sofridas memórias”, uma história das minhas origens na aldeia serrana. Bem, quase serrana.

#10 Aldeia de sofridas memórias

A aldeia não passava de uma fieira de casas de pedra escura atravessada por uma estrada de terra batida. Pouco mais. Nas traseiras do casario aninham-se pocilgas de porcos, currais de ovelhas, capoeiras de galinhas. De quando em quando uma junta de bois percorria a estrada puxando um carro de estrume ou lenha para o inverno.

Plantada entre as serras do Açor e do Caramulo, a aldeia é observada à distância pela mãe de todas as serras: a serra da Estrela, forrada nas altivas vertentes pela brancura dos nevões.

A casa abarracada onde vivíamos encostava-se envergonhada às traseiras do povoado, daí vislumbrávamos serranias e pinhais. Raramente gente. No passado o sítio foi o curral onde a minha avó abrigava a burra, antes de lha terem roubado numa noite de invernia. 

Após partir desta vida, na insólita partilha do escasso património da minha avó, coube à minha mãe o térreo casebre do animal. Foi aí que os meus pais com quatro filhos se instalaram para viver: chão de terra, telha vã, frio rompendo pelas fendas nas paredes descarnadas, chuva vertendo pelo telhado roto para o interior. Do pobre recheio destacavam-se duas camas, uma arca que guardava a loiça e servia de mesa, uma cantareira com dois cântaros de água, um candeeiro a petróleo e um recanto onde se acendia a fogueira para cozinhar a sopa numa panela de ferro.

Aquilo não era casa. 

Continuava a ser o curral da burra.

Não passava de um casebre de rude e austera tristeza. 

Mas naquele dia, eu e os meus irmãos observávamos em solene expectativa a nossa mãe a preparar o milagre do pão. Na velha gamela de amassar, sobre o tampo da arca, ela despejava uma sofrida taleiga de farinha de milho para cozer uns pães no forno. Ainda misturava o fermento e a água morna, mas eu e os meus irmãos já antecipávamos a broa acabada de cozer, o morno e agradável aroma da farinha tostada polvilhando a côdea gretada, o naco de pão quente mastigado com voracidade e deleite.

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