Conhece o aforismo popular, ”aquilo que não nos mata faz-nos crescer”? Reconheço a validade da frase, mas digo-lhe que por vezes não precisávamos padecer tanto para nos tornarmos gente crescida.
Hoje venho servir-lhe “Uma tigela de sopa”, uma história da minha infância, no tempo em que o alimento do dia-a-dia era um bem sofrido, difícil de obter.
#12 Uma tigela de sopa
As aulas na escola primária até iam bem. O pior era a hora de almoçar. Eu trazia a tabuada na ponta da língua, o caderno para escrever o ditado, mas não trazia comida para o almoço.
No terreiro da feira, não longe da escola, havia uma cozinha do povo – dos pobres, melhor dito –, onde à hora de almoço serviam uma malga de sopa e uma fatia de pão de milho. Nada mais.
Tinha um senão, dois, para ser mais preciso.
Antes de comer eu tinha de ir ao pinhal apanhar um braçado de lenha para a Dona Francisca fazer a sopa do dia seguinte. Era o preço da refeição. E porque a cozinha tinha um espaço exíguo, tinha de comer no exterior, pondo a malga sobre uma velha bancada da feira que servia de mesa.
Se com bom tempo comer ao ar livre não era desagradável, nos dias de invernia, com frio e chuva a cair-me nas orelhas, na tigela da sopa e na fatia de broa, o repasto lembrava a punição de um condenado. Mas era o que havia para um pé rapado, filho de muita pobreza, poder comer.
A sopa de couves tinha um discreto travo a sabão causado pelo tempero rançoso que ia para a panela. Em si mesma, era mais um sinal das carências daquela humilde cozinha.
Terminada a refeição, eu lavava a tigela e a colher na bica de água no bebedouro dos animais. Deixava-a na prateleira no interior da cozinha, ao lado do amontoado de lenha, e corria para a aula da tarde com o caldo a sacolejar na barriga.
Corria descalço e pensava: um dia, quando for grande, hei-de ter sapatos e comer como um senhor.

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