Alguma vez foi guardador de rebanhos?
Alguma vez teve por companhia ovelhas e cabras, o céu e o prado florido, o odor da erva fresca, a fragrância da macela e da alfazema?
Se nunca vivenciou essa experiência dos sentidos, conheça este “Pastor de palmo e meio” numa história da minha infância.
#13 Pastor de palmo e meio
Aos nove, dez anos eu voltava da escola para levar o gado a pastorear por azinhagas com erva e pinhais com fetos e musgo. Era a minha obrigação nas tardes do final do dia: apascentar o gado. O rebanho era escasso, duas ou três cabras, outras tantas ovelhas, por vezes cabritos e cordeiros saltitando atrás das mães.
Nesse tempo ainda não conhecia o soneto de Camões: “Sete anos de pastor Jacó servia//Labão, pai de Raquel, serrana bela.//Mas não servia ao pai, servia a ela,//que a ela só por prémio pretendia”.
Eu não me chamava Jacó, nem ela se chamava Raquel, mas por cima do muro que ladeava a canada eu deitava-lhe olhares a que ela correspondia com sorrisos convidativos.
Pouco mais velha do que eu, quando passava com o rebanho a Sãozinha via em mim um parceiro de brincadeiras e inocentes malandrices. Mas eu tinha obrigações, levar os bichos a pastar todas as tardes. Ela postava-se do outro lado da sebe e, com gestos de mãos, convidava-me a saltar e ir ao seu encontro. Eu resistia e seguia atrás do gado sem tempo para folguedos. Os animais exigiam atenção, seguiam pela berma da estrada a trincar o pasto tenro, indiferentes ao namoriscar da moça. Ela deixava-se ficar num amuo fingido, pensando no melhor jeito de me levar para o seu regaço.
Guardador de rebanhos, também fui. Namoradeiro, nem tanto. Fiz de tudo um pouco enquanto amontoava sonhos, carreguei-os abraçando fantasias sobre um mundo que sabia à minha espera. Escutava o som da carreira que me chegava no sibilar do vento e imaginava-me a ir nela para a grande cidade. Deitava-me na erva florida do pasto e imaginava as nuvens no alto a levarem-me para lá da serra. O que havia para lá da serra, ignorava, mas alguma coisa devia haver senão as nuvens não corriam para lá.
Era um pastor de palmo e meio, desalentado com aquela vida, aprisionado ao rebanho e à estrada que não ia para nenhum lado.
Não sabia quando, mas um dia, um dia haveria de construir uma estrada só para mim. Uma estrada que me levasse para bem longe.

Subscreva a newsletter
Preencha o formulário abaixo e receba todas as semanas histórias e novidades diretamente na sua caixa de e-mail.
*os campos assinalados são de preenchimento obrigatório

