Alguma vez saltou a fogueira num ritual pagão de morte e renascimento? Se nunca deu saltos com o fogo a lamber-lhe as pernas proponho-lhe a leitura da “Queima do Ano Velho”. E descubra como os nossos ancestrais eram bem mais genuínos que nós nas celebrações da passagem de ano.

#16 Queima do Ano Velho

A aldeia onde nasci era pobre e sem iniciativa para organizar uma festinha popular. Tinha nome de santo, São Fagundo, mas não tinha festa. Tinha capela de santo mas não tinha padre nem procissão. A porta permanecia encerrada, o musgo a crescer nas ombreiras.

A aldeia tinha becos estreitos e uma estrada de passagem para a aldeia vizinha. A aldeia vizinha era farta e animada. Tinha um sapateiro a martelar meias-solas, um forno de padaria, uma fonte com roda de tirar água, o terreiro de lançar o chinquilho, a mercearia com a balança viciada. E tinha a taberna do seboso a vender quartilhos de vinho aos esponjas que ali estacionavam o corpo, durante o dia. Como o meu pai.

Uma animação.

Na noite de 31 de Dezembro juntavam-se sóbrios e ébrios na largueza do terreiro e acendiam um fogaréu desmedido. Divertiam-se com saltos da fogueira, cantorias, reptos ao desafio, apostas de garrafões de vinho.

Folguedos. Folguedos do povo a Queimar o Velho. O Ano Velho.

O sacana do Ano Velho que se finava no calendário.

Eu observava afastado da folia, encostado à minha mãe, protegido do frio pelo xaile comprido. Ela viera porque eu insistira ver o fogaréu, não por que ela sentisse alegria na passagem de ano. Para a minha mãe os dias do ano eram um calendário de maus tratos e tristeza. Nenhuma Queima de Ano Velho lhe trazia esperança para o Ano Novo. Mas viera. Viera espreitar a animação alheia porque eu teimei. Para mim tudo aquilo era novidade, um despertar para as estranhas vivências dos adultos.

Quando se aproximava a meia-noite espetaram um pau na frente da fogueira e amarraram-lhe um espantalho de palha, vagamente humano, revestido de roupas remendadas e trapos a envolver a cabeça, pronto para lhe deitarem fogo.

O padeiro, talvez por estar habituado ao calor do forno, aproximou-se com um discurso trapalhão de despedida do Ano Velho. As gentes gritaram-lhe: “Deita-lhe o fogo, porra, chega de conversa!”, incitando-o a pegar num tição da fogueira. Ele assim fez e o espantalho foi queimado no meio de gritaria, toques de corneta e batidas de pandeiro, despedindo-se o povoléu das pérfidas memórias que os doze meses lhe traziam.

Quando o boneco se desfez em fagulhas e cinzas a minha mãe regressou a casa, eu com ela, esperando que o ano que acabara de nascer lhe trouxesse uma réstia de esperança e menos aflição. 

Anos mais tarde percebi que aquele evento pagão feito de chamas e vinho emergia dos ancestrais cultos do solstício, sendo uma expiação pelo fogo das lembranças menos felizes. 

Acredito que a minha mãe via na Queima do Ano Velho a queima das suas dores, dores sofridas ao longo do ano que terminava. Nunca tive a certeza se ela intuía na chegada do Ano Novo o renascer da Fénix das cinzas, trazendo-lhe esperança num futuro melhor. Não sei se ela acreditava, eu acreditei sempre que esse dia chegaria.

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