Alguma vez foi acusado por algo que não fez ou não disse? Recorda-se da mágoa sentida por essa falsidade?
Hoje proponho-lhe a história “Injustiças que magoam”, e descubra o défice de compaixão e clemência de certas pessoas.
#18 Injustiças que magoam
Na infância fui acusado por uma acção que não cometi. Não me prenderam nem deportaram, mas fui acusado pelo filho do cabo da GNR (referência de autoridade e poder), e em consequência espancado com violência pela professora.
E eu só tinha nove anos.
De nada serviram as minhas juras de inocência, as súplicas, os gritos de dor das palmatoadas com a moca de madeira batendo nas minhas mãos franzinas, deixando-as em brasa, vermelhas, inchadas, incapaz de segurar a caneta e escrever o ditado que veio a seguir.
E eu só tinha nove anos.
Quando me tornei adulto li o livro de Émile Zola, J’accuse, sobre o caso Dreyfus, acusado injustamente em tribunal num erro judiciário, sendo preso e deportado. Percebi nessa altura a dor do oficial francês, vítima da ignóbil injustiça, ao ser incriminado por um acto que não cometeu.
Salvaguardando as devidas distâncias e gravidade das acusações, eu e Dreyfus provámos o veneno da falsidade atirado por desumanos acusadores.
Foi assim:
Num dia em que eu regressava da escola com um grupo de rapazes muito mais velhos, ao passarem à porta do cabo do posto, descobri que tinham o hábito de bater à porta e fugirem antes que fossem avistados. A porta tinha uma maçaneta em forma de mão, e bater na porta com a maçaneta era uma tentação para os miúdos travessos. Um hábito que desesperava quem morava na casa.
Naquele dia repetiram a graça com repetidas pancadas. E desataram a correr para não serem vistos. Dobraram a esquina e ficaram ocultos.
Eu não passava de mero observador, levei tempo a perceber a fuga e a correr atrás deles. Quando o filho do cabo da GNR veio à janela do primeiro andar, só me viu a mim a correr e a contornar a esquina. Mais ninguém. Deduziu com ligeireza que fui eu que estivera a martelar a porta com pancadas.
No dia seguinte foi enviado pelo pai para ir à escola denunciar-me à professora. Como anteriormente esta já recebera queixas semelhantes, naquele dia a mestre-escola decidiu reprimir a brincadeira e fazer de mim um exemplo com dor e brutalidade.
E eu só tinha nove anos. Nove anos!

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