Alguma vez lhe cortaram o cabelo na rua, à porta de casa, sentado num banco da cozinha? Se tem o hábito de ir à barbearia do shopping para uma aparadela nas guedelhas, proponho-lhe a leitura de “Pai Tomás era barbeiro”, e descubra como antigamente se cortava o cabelo com pouco dinheiro, sem perfumes nem mordomias.
#19 Pai Tomás era barbeiro
A estrada rural na Beira-Alta por onde ele caminhava não era um caminho na Louisiana. O campo de milho onde ele colhia uma espiga para trincar não era uma plantação de algodão no Mississípi.
Mas o preto velho que caminhava na estrada para a minha aldeia, assemelhava-se ao personagem criado pela escritora Harriet Beecher Stowe, no seu romance, A Cabana do Pai Tomás, narrando a história do escravo negro que se elevou ao que de bom e digno há num ser humano.
Eu esperava por ele ao cimo da estrada e ele acenava-me quando atravessava a ponte sobre o ribeiro, caminhando sorridente ao meu encontro.
Era um homem bom que ia de terra em terra com a sua maleta de madeira contendo os instrumentos de cortar o cabelo.
Eu era criança e esqueci o seu nome, mas não esqueci a bondade e simpatia daquele africano, nem o rebuçado que me dava quando recebia da minha mãe umas parcas moedas como pagamento por me ter cortado o cabelo nas traseiras da casa.
Ninguém sabia de onde aquele homem viera nem porque percorria as aldeias cortando o cabelo a adultos e crianças. Mas no tempo de hoje, feito de crispação e injúrias sobre os méritos e deméritos da cor da pele, a minha aldeia era um exemplo, aquele homem era estimado e fazia amizades com facilidade.
No povoado onde nasci, nos anos cinquenta do século passado, grande parte das gentes que lá vivia era analfabeta e não lia jornais. Poucos tinham visto o mar, ignoravam onde ficava a África e não sabiam o que era o racismo. A ideia de marginalizar outra pessoa só porque tinha pele escura, era uma ideia estranha, foi algo que nunca vi ser praticado pela gente simples que me rodeava.

Subscreva a newsletter
Preencha o formulário abaixo e receba todas as semanas histórias e novidades diretamente na sua caixa de e-mail.
*os campos assinalados são de preenchimento obrigatório

