Mesmo que não tenha nascido no campo rodeado pela natureza nem tenha bebido leite de cabra acabado de ordenhar, esta história é para si. Mesmo que a sua mãe não lhe tenha transportado à cabeça mas tenha levado às cavalitas, consigo agarrado às orelhas dela, esta história é para si. Se nasceu na cidade não encontra veredas bordadas a musgo nem camomila florida suspensa dos muros. Aproveite esta história para descobrir o que lhe escapou na infância.
Leia “O mundo visto da cesta”, uma história da minha infância que hoje criei para si. De seguida leia “A cidade e as serras” de Eça de Queirós e terá ganho o seu dia.
#2 O mundo visto da cesta
Comecei a ver o mundo do alto quando a minha mãe me transportava numa cesta à cabeça. Ainda não sabia andar nem falar mas tinha curiosidade para espreitar pela borda e ver o chão desfilar com os passos da minha mãe.
Era um mundo novo aquele que via do alto. Aladino tinha um tapete voador para observar Bagdad. Lindbergh tinha o Spirit of St. Louis para chegar a Paris. Saint-Exupery um Caudron-Simoun para cruzar o deserto africano.
Eu tinha a cesta da minha mãe para vogar através dos campos num voo rasante de curiosidade.
Pássaros, rãs, gafanhotos sobressaltavam-se com os passos dela e pulavam assustados em fugas engraçadas que me faziam sorrir.
Olhava em frente da cesta e vislumbrava o caminho estreito bordado de camomila florida, a ribanceira forrada de musgo, a represa de água coberta de limos. Olhava para a traseira da cesta e observava a Vaidosa, a cabra leiteira que seguia a minha mãe presa por uma corda.
Aquele calcorrear dos caminhos até à courela de chão onde a minha mãe plantava batatas, milho e feijão, eram jornadas de descoberta que um pirralho curioso como eu ia deixando boquiaberto.
No chão de erva fresca, sob a sombra da figueira, a minha mãe depositava a cesta enquanto cuidava da horta. A Vaidosa presa à figueira pastava e deitava-me olhares. Eu adormecia a olhar os ramos da figueira por cima de mim, vendo os tentilhões empanturrarem-se com os figos loiros de São João.
A meio da tarde despertava com presença da minha mãe a ordenhar a cabra. Enchia uma malga de leite e dava-mo a beber, deixando-me saciado, feliz.
Naquele tempo de inocência tive duas mães: a que me pôs no mundo e me transportava à cabeça, e a Vaidosa que me alimentava com o seu tépido leite.

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