Lembra-se quando soletrou as primeiras palavras?
Recorda-se se foi num livro infantil ou num pedaço de jornal?
Se não se lembra, hoje trago-lhe “Bordados de jornais”, uma história que metia loiça velha e jornais antigos.
#25 Bordados de jornais
No casebre onde no dia-a-dia arrumávamos as penúrias e o cansaço do corpo, a minha mãe tinha um singelo armário onde acomodava a pobreza da loiça. Despido de portas e costado, apoiava-se solitário na parede enegrecida. Duas tábuas nas ilhargas e duas nas extremidades, não passava de um caixilho feito de simplicidade e madeira desgastada pelo uso caseiro. Na base tinha a cantareira onde se amodorravam dois cântaros de água, lado a lado como irmãos gémeos, aguardando a hora de regressar ao chafariz.
Por cima dos cântaros, com um palmo de largura bem medido, quatro prateleiras forradas com jornais velhos vindos sabe-se lá de onde. Jornais que a minha mãe recortava à tesoura com destreza num bordado elegante e preciso, disfarçando a pobreza do armário.
Era uma arte de recurso e simplicidade.
Na primeira prateleira, encobrindo as maiúsculas dos jornais acomodavam-se os pratos, bem modestos por sinal, esboiçados por mil tombos, sobreviventes de avós, pais, filhos e netos. Resistiam ao tempo e ao desgaste do uso. Na prateleira intermédia, sobre imagens de notícias e inaugurações, amparavam-se púcaros de barro bem chegados aos copos de vidro baço, uns e outros irmanados na função de acomodar bebida. Na prateleira seguinte, malgas e canecas desirmanadas alinhavam-se sobre retratos de tragédias em estrada e excessos de velocidade. E na prateleira superior, por ter limitado uso, sobre fotos de jogos de bola e campeonato, resguardava-se a loiça de cavalinho, lembrança de vetusta cerâmica que em tempos teve reputação e fama.
Eu regressava do chafariz com o cântaro a pingar e alojava-o no redil da cantareira. Debruçava-me sobre o rendilhado dos velhos jornais e soletrava serôdias notícias, repisadas, envelhecidas como a fruta que despenca das árvores, notícias de que eu nunca ouvira falar, roídas pela traça no papel amarelecido.
Aquele bordado em jornais velhos, debruado num ingénuo enfeite no bordo das prateleiras por cima da cantareira, era o meu postigo para o mundo. Espreitava por ele afastando a loiça para ler as gordas dos cabeçalhos, e soletrar as minúsculas das páginas do interior. Eram imagens e notícias requentadas, vindas de nem eu sabia de onde, imagens e notícias onde eu, criança curiosa, fantasiava aventuras e viagens de descoberta.

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