Alguma vez lhe faltou pão à mesa? Alguma vez cortou finas fatias para que o pão durasse por muito mais tempo?

Hoje trago-lhe “Uma broa de empréstimo”, uma história heróica da minha mãe para que à mesa não nos faltasse pão.

#26 Uma broa de empréstimo

Na oração costuma pedir-se “o pão nosso de cada dia”. Está bem, e a farinha para fazer o pão? E o milho para fazer a farinha? E o dinheiro para comprar o milho? Eu era criança mas descobri bem cedo que a minha mãe não possuía o pão, nem farinha, nem milho, muito menos o dinheiro.

Então ao anoitecer para que as nossas penúrias fossem dissimuladas pela escuridão, a minha mãe dizia-me, “filho vai a casa da prima Arminda e pergunta se pode emprestar uma broa”. Eu ia e trazia uma broa de empréstimo para o pão nosso daquele dia. Para mim e para os meus irmãos.

Fatiávamos a broa em pedaços bem finos, fazendo-a durar o mais possível até a minha mãe conseguir as moedas para uma taleiga de milho. Mas as moedas tardavam em aparecer. E dias depois quando até a côdea endurecida tínhamos roído, a minha mãe enviava-me em nova missão nocturna. Desta vez a casa da prima Rosa para mais uma broa de empréstimo. Seguia-se a prima Celeste, a prima Ermelinda, a prima Teresa. 

A afinidade com estas “primas” não era um laço biológico, era apenas uma fraternidade de proximidade, vizinhas solidárias com a minha mãe e as nossas penúrias. Conheciam-lhe as dores, a pobreza e os maus tratos, e solidarizavam-se com ela nos empréstimos do pão. Quando me viam aparecer depois do pôr-do-sol sabiam ao que eu ia. Cediam uma broa extra a que por vezes juntavam umas azeitonas do pote ou um naco de toucinho da salgadeira.

Quando a minha mãe conseguia rapar do fundo do avental umas moedas para um alqueire de milho, punha a taleiga à cabeça e encaminhava-se para a moagem na vila. Perdia um terço do grão no pagamento da moagem, um escambo de subsistência, uma permuta só possível para regressar a casa com farinha para cozer uns pães.

Eu ia aos pinhais e fraguedos recolher ramagens de pinheiro, vides das podas, mimosas e estevas dos terrenos desmatados para aquecer o forno comunitário. 

Depois de amassar a farinha e a deixar levedar, a minha mãe nivelava a quantidade de massa numa malga bojuda. Ajeitava cada porção numa bola enfarinhada e, com o cutelo da mão, marcava-lhe uma cruz, pronunciando um mantra de protecção.

Enquanto isso o forno reverberava com o braseiro, libertando aromáticos odores da queima da esteva resinosa. A minha mãe ajeitava o borralho para um lado e com uma pá enfornava as oito bolas de massa. Deixava-as cozer até a côdea gretar, retirando-as ao fim de algum tempo num agradável aroma de farinha tostada.

Mal caía a noite eu ia de casa em casa a cada uma das “primas” devolver a broa de empréstimo. E agradecer. Regressava e deparava-me com a minha mãe a encarar as broas sobrantes. Três solitários pães. Depois de um esforço heróico para ter pão na mesa, doía ver a tristeza a marcar-lhe o rosto.

Eu sabia porquê. 

Aqueles três pães não passavam de uma escassa reserva para alimentar quatro filhos. Eram as sobras de uma fornada. Quase nada. Em breve o pão nosso de cada dia se extinguiria. Sem farinha para nova cozedura. Sem milho para obter farinha. Sem dinheiro para comprar o milho. 

Em breve eu recomeçaria as minhas deambulações nocturnas. Sem esperança em dias melhores.

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