Tem livros em casa para preencher o vazio dos dias? 

Costuma sentar-se e ler o livro com um enredo que o entusiasme?

Hoje trago-lhe “Um livro se faz favor”, uma história de livros e leituras no tempo em que eu andava descalço.

#27 Um livro se faz favor

Olhem para mim embasbacado a olhar a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, descalço, calções remendados, expectante, frente à porta do furgão Citroen, a mirar o interior repleto de livros cuidadosamente arrumados nas prateleiras. 

Por dentro um fogo a consumir-me, impelindo-me a entrar, por fora uma timidez indisfarçável na magreza dos dez anos. O bibliotecário que também é motorista, vendo-me plantado ao chão quase a ganhar raízes, perguntou lá do fundo se eu queria alguma coisa: Um livro se faz favor, respondi, alvoraçado pela ousadia do pedido.

O homem mandou-me entrar e escolher. Entrei. Aquilo não era um furgão de livros, era a caverna de Ali Babá repleta de tesouros à espera de serem colhidos por mãos ávidas de riqueza. Olhei em volta, podia levar dois livros mas a dificuldade era escolher. Peguei na Branca de Neve, folheei e troquei pelas Aventuras de Tom Sawyer de Mark Twain. Peguei no Capuchinho Vermelho, folheei e troquei por Robinson Crusoé de Daniel Defoe.

Sem ter consciência da escolha, naquela primeira leitura seleccionei dois arquétipos de aventura e viagem, temáticas que pela vida fora sempre estariam presentes nas minhas preferências.

A Biblioteca Itinerante da Gulbenkian foi uma janela de ar fresco na minha meninice, de cada vez que eu abria a janela fortalecia em mim o incentivo da leitura e o amor pelos livros. 

Uma vez por mês, calcorreava os caminhos desde a aldeia até à vila, aguardando ansioso a chegada da Citroen para a escolha de novos livros. Em adulto, descobri por outras leituras, que aquele trabalho de fazer chegar livros a pessoas em povoados remotos, deparava-se com resistências inesperadas. Era mal visto, localmente, por algum clero e gente conservadora, gente que censurava a presença da Biblioteca e a leitura pelas mulheres.

Eu deparei-me com uma animosidade interna, uma embirração do meu pai quando me viu aparecer em casa com Tom Sawyer e Robinson Crusoé. Na sua ignorância de analfabeto que nem o nome próprio sabia desenhar, censurou-me por andar agarrado a coboiadas e porcarias. Mas nunca me bateu por eu gostar de ler, ao contrário de um parente, anos mais tarde, que me desancava com uma mangueira de borracha de cada vez que me descobria com um livro.

Jorge Luis Borges disse uma vez: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”. Para mim o paraíso vinha uma vez por mês sobre quatro rodas, e nesse paraíso viviam deuses que plasmaram no papel as suas melhores palavras, sedutoras umas vezes, desafiantes outras, inspiradoras quase sempre. 

Os livros e as leituras foram a minha carta de alforria, libertaram-me das grilhetas da ignorância onde teria permanecido, aprisionado e escravo se não ousasse ler. 

Tudo o que sou devo-o aos livros. Com os livros viajei, percorri o mundo, vivi aventuras, construí conhecimento e sabedoria folheando página a página, lendo, reflectindo sobre aquilo que um dia alguém escreveu. 

Hoje já não ando descalço nem tenho calções remendados, nem paro expectante frente ao furgão Citroen. Mas sou incapaz de passar à porta de uma livraria sem entrar com um brilho nos olhos e folhear livros que não conheço. 

Há quem escolha o domingo para visitar o templo da sua devoção. Eu visito o meu templo em qualquer momento, não tenho dia certo, basta passar-lhe à porta. Entro e venero as divindades alinhadas nas prateleiras, séculos de pensamento baseado na Razão e na Filosofia das Luzes.

Então viro-me para o sacerdote do templo e peço-lhe alimento para aquele dia: Um livro se faz favor!

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