Hoje trago-lhe “O muro que nos separava”, uma história do tempo das primeiras letras.
Num tempo em que tantos muros se erguem mundo fora, houve na minha infância um paredão que desafiávamos e transpúnhamos com risco de punição.
Éramos crianças atrevidas para quem nenhuma barreira fazia sentido, muito menos aquele muro que cerceava a nossa liberdade.
#28 O muro que nos separava
A escola era um bloco rectangular de dois pisos revestidos de janelas. No interior uma geometria de segregação: salas de aula dos rapazes de um lado, salas de aula das raparigas do outro.
No exterior, um muro.
Um paredão que separava brincadeiras e convivências entre os dois sexos. Uma barreira alçada à altura dos nossos olhos, desde a entrada até às traseiras de terra batida, desunindo moços e moças na hora do recreio.
No dia-a-dia na aldeia, irmãos e irmãs partilhavam tarefas e brincadeiras. A criançada misturava-se em sã convivência em jogos e folguedos. Mas transposta a entrada da escola, rapazes e raparigas eram separados pela filosofia conservadora do regime, feita de desconfiança e tradicionalismo bacoco.
No intervalo das aulas, com os olhos a rapar a parte superior do muro, olhávamos as brincadeiras do lado delas, e elas miravam as correrias do nosso lado.
Através do muro partilhávamos informações sobre o que se passava nas aulas, as dificuldades com a tabuada, os castigos das professoras, o resultado dos testes, a hora de regressar a casa. Numa genuína solidariedade trocávamos um desenho do caderno por um aparo da caneta, um lápis de cor por uma borracha, uma maçã por um biscoito do lanche, e às vezes, as sobras da marmita enviada pela mãe.
Havia nos moços e moças dos dois lados do paredão uma fraternidade juvenil, uma autenticidade no relacionamento que ajudava a suavizar o formalismo, a rigidez, e às vezes a violência nas salas de aula.
Se alguém faltava ao encontro no muro, perguntávamos se estava doente ou ficara de castigo frente ao quadro preto, a escrever cinquenta vezes os erros do último ditado.
Os rapazes mais lestos e atrevidos, numa fanfarronice para impressionar as raparigas, trepavam o muro que nos separava. Deixavam-se ficar encavalitados ou caminhavam de pé, braços abertos em equilíbrio instável, saltando para o lado delas para júbilo de toda a assistência.
Era um desafio à autoridade e às proibições dos professores, querendo mostrar que nenhuma barreira física nos podia separar por muito tempo, por mais muros que erguessem no nosso caminho.
Décadas mais tarde, de visita às origens da minha infância, parei frente à escola. Revi o edifício onde aprendi as primeiras letras e descobri o gosto pela leitura. Mergulhei no passado e revi rostos desaparecidos de companheiros de estudo e de folia.
A frente da escola era agora um espaço ajardinado. Nas salas de aula misturavam-se rapazes e raparigas. O muro que nos separava fora derrubado. Desaparecera. A área do recreio tornara-se um espaço aberto de convívio e liberdade.

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