
No ano em que se comemoram os 80 anos do bombardeamento atómico da cidade japonesa de Hiroshima, venho propor-lhe a leitura da crónica Lágrimas de Hiroshima, para que recorde os acontecimentos e as vidas que se perderam na tragédia do dia 6 de Agosto de 1945.
Passadas oito décadas sobre o primeiro bombardeamento atómico, Hiroshima tornou-se para o Japão e para o mundo um memorial de Paz que nos convoca à reflexão sobre o infinito sofrimento que devastou a cidade, e sobre a necessidade de vivermos num mundo sem armas nucleares.
Lágrimas de Hiroshima
Não se chega a Hiroshima, no Japão, sem sentir uma forte emoção. Saí de Osaka no comboio-bala para visitar a cidade que sofreu o primeiro bombardeamento atómico da história humana. À medida que me aproximava da grande metrópole, percebi que seria incapaz de abarcar com palavras a trágica dimensão dos acontecimentos ali ocorridos no dia 6 de Agosto de 1945.


Quando cheguei ao Parque Memorial da Paz de Hiroshima, hipocentro da explosão atómica, um sentimento de estupefacção e incredulidade atingiu-me de forma esmagadora. Apesar de vir do outro lado do mundo eu sabia com algum detalhe o que ali aconteceu há 80 anos.
Sabia mas não sentia.
De repente a emoção apoderou-se de mim, eu estava no local onde o homem usou o mais avançado que a ciência produziu para arrasar uma cidade e dizimar a sua população. Nunca na história dos conflitos humanos acontecera tal calamidade.
Conheço a razão evocada pelos Estado Unidos para justificar o bombardeamento atómico: apressar o fim da guerra com a rendição do Japão. Mas a dúvida persiste até hoje, seria mesmo necessário usar aquela arma sobre a cidade japonesa, ou terá havido razões geopolíticas ocultas para o fazer? Não sei, os actores que tomaram a dramática decisão já não existem, só a História o poderá julgar.

Fonte: BBC News; Atomic Heritage Foundation
Decidi ilustrar o mais possível esta crónica com imagens que recolhi junto dos monumentos evocativos e no interior do Museu das Vítimas do bombardeamento. Se você não se sentir chocado com o texto e as imagens que aqui lhe trago, é porque está morto ou então perdeu a sua humanidade.
Este não é um simples apontamento de viagem, não é uma crónica para agradar, é o testemunho de alguém que esteve no Ponto Zero do Inferno na Terra e se comoveu com o que viu e sentiu.
E eu quero que você se sinta chocado(a).
E se emocione se puder. Se for capaz.

Observo em redor e, neste espaço reconstruido, fixo-me no único vestígio do bombardeamento: a Cúpula Genbaku (Atomic Bomb Dome), Património Mundial da UNESCO, um reconhecimento da sua importância histórica. Edifício inaugurado em 1915 para acolher a Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima, ergue-se a 150 metros do hipocentro e resistiu parcialmente ao impacto da explosão.

O hipocentro onde ocorreu a explosão da bomba é hoje uma área protegida, o Parque da Paz de Hiroshima. A reconstrução da cidade deixou intacta esta ruína repleta de simbolismo.
Instintivamente o meu olhar vira-se para o alto. O céu por cima de Hiroshima está parcialmente encoberto como no dia em que o bombardeiro B-29, Enola Gay, largou a bomba.

Se nesse dia alguém estivesse no ponto onde eu estou agora e olhasse para o alto, teria visto claramente a bomba a vir na sua direcção. Com 4 toneladas de peso, 3,2 metros de comprimento, 71 centímetros de largura e cor escura, a primeira bomba atómica da história seria visível a um simples olhar.
Três meses antes do teste da primeira bomba em Los Alamos, no deserto do Novo México, o Comité de Alvos realizou uma reunião para decidir a cidade japonesa a ser bombardeada. Deveria ser uma cidade importante, com uma área urbana com mais de cinco quilómetros de diâmetro. Deveria também ter uma geografia que maximizasse os danos da explosão para infligir terror à população japonesa. Outro critério era que a cidade ainda não tivesse sido atacada com bombas convencionais. Desejava verificar-se toda a capacidade destrutiva da nova arma.
Faltava seleccionar a cidade a imolar.
Três alvos foram escolhidos: Hiroshima, Kokura e Nagasaki. Se as condições de visibilidade o permitissem, Hiroshima seria a escolhida. Três aviões meteorológicos seguiriam na frente para avaliar o estado do tempo em cada cidade.
Às 02h45 do dia 6 de Agosto, o bombardeiro B-29, pilotado pelo Tenente-coronel Paul Tibbets, do 509º Grupo, descolou da ilha de Tinian no arquipélago das Marianas, no Pacífico. O avião faria um voo de seis horas e meia para chegar a Hiroshima.

Paul Tibbets, o B-29 “Enola Gay” e a tripulação que efectuou o bombardeamento atómico sobre Hiroshima.

Tibbets distribuíra a cada membro da tripulação uma cápsula de cianeto para o caso de o avião ser abatido e os tripulantes serem capturados. Nenhum podia cair vivo nas mãos dos japoneses.
Às 08h05 Paul Tibbets e a tripulação do B-29, voando a 10.000 metros de altitude tinham Hiroshima à vista. A mira de bordo do major Ferebee estava apontada à ponte Aioi, em forma de “T” no centro da cidade.
Às 08h14 Tibbets deu ordem à tripulação para colocar os óculos de soldador, impedindo que ficassem cegos pelo brilho da explosão. Às 08h15 Ferebee carregou no botão e a bomba caiu livremente sobre a cidade. 43 segundos depois a denominada Little Boy (Rapazinho), explodiu 600 metros acima do solo, por cima da clínica cirúrgica Shima. A explosão no ar e não no solo foi calculada pelos cientistas de Los Alamos como forma de potenciar os danos sobre a cidade.

Bomba atómica “Little Boy” continha 65 quilos de urânio enriquecido U-235, desenvolvido para o “Projecto Manhattan”.
Um clarão tão brilhante como mil sóis provocou uma destruição jamais vista na história humana, desintegrando num piscar de olhos, edifícios, viaturas, animais, pessoas. Num momento a cidade estava lá, no momento seguinte tinha desaparecido.

Este relógio no Museu Memorial da Paz de Hiroshima parou às 8h15, o momento da explosão. SOPA Images / Gettyimages.ru

Morreram de imediato 70 mil pessoas. Uma gigantesca nuvem em forma de cogumelo, feita de poeira cinzenta, castanha e negra, subiu para o céu até cerca de 7.000 metros de altura, sendo visível a centenas de quilómetros de distância.
Entre Agosto e Dezembro de 1945 morreriam mais 70.000 pessoas. No final do ano tinham perecido 140.00 japoneses.
Suspendo o meu caminhar.
Onde estão as pessoas que aqui viviam?
Desconfio deste chão que piso. Sinto-o minado por silêncios de morte. Torno-me ciente de onde assento os pés. Aqui morreram milhares de seres humanos. Fulminados num piscar de olho.
Exactamente aqui!
Que chão é este?
É um chão de morte, de catástrofe, por mais embelezado que esteja com jardins e relva. Fico atento ao que há em volta. Visitantes andam por ali, tiram fotografias e selfies com ar animado, mascam pastilha elástica, fazem comentários ligeiros sem apreenderem o brutal significado do chão onde assentam os pés.
Apetece-me gritar-lhes: Ó criaturas sintam, este é um chão que foi abrasado pelo fogo do inferno, mais mortífero que o magma dos vulcões. Um fogo com uma temperatura de 4000 graus Celcius que vitrificou as pedras, fundiu o metal e derreteu o vidro. Um fogo que num repente fulminou crianças, mulheres e homens que estavam onde eu agora me encontro. Exactamente aqui!
Estou só… e não estou. Sinto-me observado.
Observado por fantasmas que me seguem, murmúrios que vão e vêm, vislumbres de gente que se fundiu num súbito tsunami de luz e fogo. Pressinto as suas presenças sem voz, os gritos mudos de mães suplicando por filhos perdidos, vaporizados num flash numa cidade que já não existe. E agora?
Onde me leva o meu caminhar?
Sei lá. Vou andando sobre esta chaga de Hiroshima. Movo-me sobre um ferimento feito de dor, eco de moribundos com pele a descolar-se da carne. Tudo é real. Tudo é irreal.
No dia 6 de Agosto de 1945, às 08h15, o operador de controle da Japanese Broadcasting Corporation, em Tóquio, reparou que a estação de Hiroshima tinha saído do ar. Tentou restabelecer o seu programa usando outra linha telefónica, mas esta também falhou.
As bases militares tentaram repetidamente chamar a Estação de Controle do Exército em Hiroshima. O completo silêncio daquela cidade confundiu os homens no Quartel-General.
Que silêncio era aquele?
O que silenciara uma cidade como Hiroshima?

A explosão dos 65 quilos de Urânio-235, equivalente a 15.ooo toneladas de TNT, foi tão devastadora e projectou raios gama com tão alta intensidade, que as superfícies de mármore e granito polido tornaram-se ásperas e abrasivas como a mais grossa das lixas.
Nada escapou ao poder destruidor da bomba. Pedaços de casas, carros, pessoas, animais, revolteando no ar foram sugados para dentro do cogumelo da nuvem. Uma escuridão tombou sobre Hiroshima. O sol desapareceu. As trevas tomaram conta da cidade. Uma chuva negra radioactiva começou a cair. Uma colossal radiação térmica de luz, calor e raios gama disparou do hipocentro da explosão, deixando impressa no chão e nas paredes dos edifícios silhuetas escuras de corpos nos seus últimos segundos de vida.

José Saramago no seu livro “Deste mundo e do outro”, imagina a vinda de seres alienígenas ao planeta Terra, descobrindo a “sombra de um homem” num muro de Hiroshima: O homem que ali estava absorveu as radiações como uma esponja e serviu de anteparo à onda calorífica que foi chocar contra o muro. O que ficou do homem, da sua “pequena alegria,” da sua “profunda e irremediável dor” é apenas um resto que faz pensar nas “oportunidades perdidas” pela humanidade.
Pessoas afastadas alguns quilómetros sobreviveram por breve tempo. Acabariam por morrer devido às terríveis queimaduras da radiação e dos incêndios que eclodiram, ou devido aos ferimentos e doenças causadas pelos raios gama emitidos pela explosão, provocando náuseas, vómitos, diarreia, sangramento, queda dos dentes e do cabelo. A longo prazo os sobreviventes viriam a padecer de tumores na tiróide, na mama e pulmão, cancro e leucemia, além de cataratas, doenças cardiovasculares e do sistema digestivo.

Após o bombardeamento veio gente de fora da cidade para participar no socorro às vítimas, sem máquina fotográfica, alguns fizeram desenhos que retractam o desespero dos sobreviventes em busca de água para mitigar a dor e o fogo que lhes abrasava os corpos.
Sumie Kuramoto tinha 16 anos de idade e assistiu ao ataque: “Houve um estrondo, uma explosão reverberante e, no mesmo instante, um clarão de luz amarelo-alaranjado entrou pelo vidro do telhado. Ficou tudo tão escuro como a noite. Um golpe de vento atirou-me ao ar contra as pedras.(…) Aos poucos consegui sair dos destroços.(…) As ruas estavam tão quentes que queimavam os pés. As casas ardiam, os carris do eléctrico irradiavam uma luz sinistra e no local de um templo as pessoas amontoavam-se. Algumas respiravam, a maioria estava imóvel. Chegava gente correndo, as roupas rasgadas, chorando, gritando. Tinham o rosto ensanguentado e inchado, a pele queimada caindo aos pedaços de braços e pernas. Dentro de um eléctrico amontoavam-se filas de cadáveres. Quem podia fugia. Hiroshima tornara-se um inferno.”

Entro no Museu Memorial da Paz e percorro as galerias cobertas de imagens e destroços, dói encarar tantos vestígios da tragédia. As imagens são difíceis de contemplar. Há visitantes que fraquejam perante a enormidade do que têm sob o olhar. Os mais sensíveis limpam as lágrimas, alguns interrompem a visita e saem mal começam a percorrer os corredores e as galerias sombrias.

É difícil não nos comovermos perante os restos de vestuário esfarrapado das crianças que pereceram. O mais empedernido dos seres não consegue ficar indiferente ao contemplar aquelas roupitas manchadas que pertenceram a meninas e meninos a quem o fogo e a radiação da bomba levou deste mundo.

Shuntaro Hida
“Tratei cerca de 6 mil pacientes, talvez 10 mil. Depois disso não quis continuar minha carreira. Todas as pessoas que eu vi morreram, uma após a outra. Não consegui salvar ninguém”.
Fonte: BBC News; Atomic Heritage Foundation;

Keiko Ogura
“Duas pessoas muito feridas aproximaram-se de mim e pediam: “água, água”. Eu dei-lhes de beber e, em seguida, elas tombaram mortas na minha frente. Comecei a culpar-me porque sentia que eu as tinha matado. Senti-me assim por mais de 10 anos.”
Fonte: BBC News; Atomic Heritage Foundation
Dos 200 médicos que havia em Hiroshima só 20 sobreviveram para socorrer as vítimas com escassos meios. Os incêndios espontâneos eram tão numerosos que deflagravam por toda a cidade. Dos cerca de 90.000 edifícios que a cidade tinha a maioria foi consumida. Restaram 28.000 prédios bastante degradados.
As pessoas que escaparam da tragédia nuclear foram chamadas de Hibakusha, que significa “sobrevivente com a doença da bomba”. Os médicos não sabiam com o que lidavam. Pela primeira vez uma arma desconhecida era usada sobre a população indefesa de uma cidade. Grandes dúvidas subsistiam. Que ferimentos eram aqueles que transformavam os corpos em monstruosidades? Como se tratavam os milhares de vítimas que imploravam por água para debelar o fogo que as consumia? Quanto tempo a radiação permaneceria? Iria afectar quem vinha de fora para prestar ajuda?
Na manhã do bombardeamento milhares de estudantes voluntários trabalhavam nas ruas, abrindo linhas de corta-fogo entre as casas térreas e construindo abrigos para o caso da cidade ser bombardeada com bombas incendiárias como acontecera em Tóquio.
Quando o B-29 Superfortess chegou e largou a bomba, havia 8000 estudantes na zona do hipocentro, trabalhando em campo aberto. Nenhum sobreviveu.

SUMIMOTO Sueko - Museu Memorial da Paz de Hiroshima - GE05-11
Esta imagem no Museu mostra uma mãe na Ponte Shin-ohashi, um dia depois do bombardeamento, gritando pelo nome do filho perante os cadáveres de crianças mortas que bóiam no rio. Esta área estava apinhada de estudantes mobilizados em trabalhos. A margem e o rio ficaram repletos de estudantes mortos com idades entre 13 e 14 anos. Os corpos flutuavam na corrente, e na escada que levava ao rio jaziam crianças mortas empilhadas nos degraus.
Milhares de seres humanos, civis, que nada tinham a ver com a guerra pereceram num faiscar de luz. Alguns sobreviveram por estarem mais afastados do hipocentro, resistindo alguns anos, aguardando por uma morte anunciada.


Viveram em sofrimento com doenças cancerígenas provocadas pela radiação, com os corpos mutilados por horríveis queimaduras. Padeceram com deformações físicas semelhantes aos demónios e monstruosidades nas pinturas de Hieronymus Bosch.
Olho para os quadros, tiro fotografias e sinto uma imensa tristeza, qualquer coisa de inexplicável que esmaga pela sua brutal desumanidade. Como pode o ser humano ser tão malévolo com outros seres humanos?
Encontro-me num lugar de morte, de dor, de catástrofe, um sítio que comove e nos deixa abalados no mais fundo da alma. Em nenhum lugar como aqui, a cruel realidade nos atinge tão visceralmente. Em nenhum outro local sentimos o absurdo da guerra e os inauditos meios de destruição que ela encerra.

Nesta imagem vemos equipas de soldados recolhendo cadáveres que enchem o rio Ota como peixes mortos num desastre ambiental. E vemo-los recolhendo corpos na rua, transportando-os para serem cremados numa gigantesca montureira.
Recorro a Günther Anders, autor de “Hiroshima está em toda a parte”: Naquela destruição incandescente, a humanidade demonstrou ter adquirido definitivamente o poder de se aniquilar a si mesma. Esse feito inédito fundou uma nova época: “o tempo do fim”.
Anders relembra a enorme dimensão da monstruosidade que a nossa tecnologia foi capaz de produzir: uma guerra de “produção automatizada de cadáveres que poderá liquidar toda a humanidade”.
Anders correspondeu-se com o major Claude Eatherly da Força Aérea dos Estados Unidos que participou no bombardeamento de Hiroshima. Ao contrário dos seus colegas recebidos como heróis, Eatherly viveu angustiado pela culpa. Tentou suicidar-se duas vezes, e para ser punido cometeu pequenos delitos a fim de ser preso. Acabou internado como demente num hospital de veteranos das Forças Armadas, onde recebeu a primeira carta de Anders, o único interlocutor que não o considerava louco.

Pintura de Kichisuke Yoshimura em exposição no Museu Memorial da Paz de Hiroshima.
Shinji Mikamo, sobrevivente de Hiroshima, disse à BBC: Senti uma dor latejante que se estendeu por todo meu corpo. Foi como se um balde de água fervendo caísse sobre mim e me arrancasse a pele.
Senji Yamaguchi, outro sobrevivente, relembra: Era tanta a dor que sentia quando me tratavam, quando tiravam os curativos um por um, que muitas vezes ficava à beira de perder a consciência“.

Fotos: Esq. Keystone/Getty Images - Drt. Carl Mydans - Coleção de Imagens LIFE

Foto: Esq. Keystone/Getty Images
Num primeiro momento os sobreviventes sofreram queimaduras que lhes arrancou a pele e os tecidos, expondo ao ar as terminações nervosas, provocando dores excruciantes. As profundas queimaduras levaram ao desenvolvimento de Quelóides, cicatrizes anormais de cor vermelha ou escura que crescem para lá da área da lesão original. Essas cicatrizes têm protuberâncias elevadas e espessas, com um crescimento excessivo de tecido cicatricial, podendo ultrapassar os limites da queimadura. O excesso de produção de colagénio durante a cicatrização é a causa principal do Quelóide.

YAMASHITA Masato - Hiroshima Peace Memorial Museum - GE10-34
Esta imagem exposta no Museu, mostra que em 13 de Agosto de 1945, uma semana após o bombardeamento, havia equipas de socorro na Escola Primária de Honkawa a colocar nomes nos feridos que iam morrer.

Sobreviventes com queimaduras procurando socorro na Ponte Miyuki, por volta das 11h00. Foto: Yoshito Matsushige
A ponte Miyuki ficava a 2,3 quilómetros do hipocentro da explosão, no limite dos incêndios que devastavam o centro da cidade
A ponte era passagem entre vida e morte.
Os sobreviventes chegavam à ponte Miyuki com extensas lesões na pele, roupas rasgadas, descalços, a carne exposta. A onda de choque atingira os edifícios a 250 quilómetros por hora, estilhaçando janelas e telhados, derrubando paredes, golpeando pessoas que não estavam protegidas.
Mitsuko Kouchi tinha 13 anos e é uma das sobreviventes que chegou à ponte Miyuki (na foto ela aparece com um lenço ao pescoço com o vértice apontando para as costas); ela descreve os outros sobreviventes que se amontoavam na ponte: Estão em silêncio, olhando para baixo com terríveis queimaduras, alguns parecem monstros com graves lesões no rosto, não parecem humanos.
Ela refere que: As pessoas chegavam à ponte Miyuki com os braços estendidos, andando devagar, com a roupa caindo dos braços, mas não era roupa, eram grandes extensões de pele que se tinha descolado dos braços. A carne estava exposta e um líquido escorria, como a pele enrugada de um peixe a ser grelhado.

Sobreviventes com queimaduras na Ponte Miyuki, por volta das 11h00. Foto: Yoshito Matsushige
Os sobreviventes que chegam à ponte Miyuki vêm flagelados pela sede, atiram-se à água para aliviar e refrescar as suas feridas, mas exaustos, acabam por se afogar; o rio Ota enche-se de corpos a boiar na corrente.
Na ponte, num silêncio de morte todos esperam sem forças para se moverem, deixam-se tombar sobre o pavimento, acabando por morrer. Muitas pessoas foram até à ponte Miyuki em busca de auxílio, outros foram lá apenas para morrer.
Estudos posteriores identificaram que 26% das vítimas de Hiroshima eram adolescentes entre 13 e 14 anos. Quando se verifica que tantas crianças pereceram, isto mostra quão devastador foi o bombardeamento para a juventude da cidade.
Para os militares a prioridade no socorro às vítimas incidia prioritariamente sobre jovens adultos em idade militar; os camiões que enviaram para a ponte Miyuki tinham ordens para excluir todas as crianças, mulheres e idosos, deixando-as por terra por os considerarem fracos sem utilidade para o esforço de guerra.

Charles Pellegrino no seu livro “Fantasmas de Hiroshima”, reuniu pesquisas de arqueologia forense com entrevistas a mais de duzentos sobreviventes e suas famílias, trazendo-nos o relato de seres humanos comuns atirados para o sorvedouro de um evento apocalíptico. No livro ele põe em evidência a natureza aleatória da sobrevivência: pessoas que estavam ao ar livre foram varridas da face da Terra numa fracção de segundo, enquanto outras que estavam em ambientes fechados e receberam protecção em “casulos de choque” contra os raios gama e a explosão de calor, sobreviveram. Pessoas que estavam ao ar livre ou expostas a janelas de frente para a explosão e usavam roupas escuras sofreram queimaduras graves, enquanto as que usavam roupas brancas sofreram menos efeitos. Aqueles que usavam roupas estampadas ou listadas sofreram queimaduras na pele que combinavam com os desenhos das suas roupas. Os que sobreviveram ao bombardeamento transformaram-se em “formigas caminhantes”, seguindo outros sobreviventes em filas, andando sem rumo pela cidade destruída. Deparavam-se com homens cuja pele havia sido tão gravemente carbonizada que adquiriram uma aparência reptiliana.

Fonte: Esq. shutterstock / Drt. national archives and records administration
Hiroshi Hara tinha 13 anos e conta: O rio estava apinhado de corpos. Muitos feridos, queimados com as orelhas derretidas imploravam por água, por alguma coisa para beber. No momento da explosão, muitas crianças agrupadas por idade e escola, estavam no centro da cidade em trabalhos de protecção para a população. Milhares e milhares morreram.
Durante a guerra, para proteger as crianças dos bombardeamentos americanos, o governo japonês enviou-as para as zonas rurais. Depois do ataque nuclear e o fim da guerra, essas crianças regressaram para não mais encontrarem os seus pais nem as suas casas. Uns e outras haviam desaparecido na catástrofe. Seis meses após o bombardeamento, Kawamoto, viu a irmã morrer sob o efeito da radiação; ele foi recolhido da rua e levado para um orfanato numa cidade próxima.
Kawamoto relata: Os órfãos eram aos milhares vagueando pelas ruínas da cidade. Reviravam o lixo à procura de comida, bebiam água suja de poças no chão e brigavam por migalhas de pão. Sorviam pedras e mastigavam jornais molhados para enganar o estômago. Morriam de fome, e os seus corpos eram cremados juntos com o lixo.
Em Hiroshima, cidade arrasada e radioactiva, os órfãos erravam pelos escombros atrás de comida. Sem governo, sem ordem, essas crianças foram recrutadas pela única organização que sobreviveu à bomba: a Yakuza, a máfia japonesa. Os meninos foram usados para vender drogas, as meninas vendidas como prostitutas noutras cidades.


© Joe O’Donnell – Em 1945 após a explosão da bomba, fotografou Hiroshima durante seis meses, e fotografou esta criança.
A criança que aparece na foto de Joe O’Donnell carrega o irmão mais novo nas costas. O bebé não sobreviveu à radiação da explosão assim como toda a sua família. No Museu a foto tem uma legenda escrita pelo próprio O’Donnell: Vi um menino de cerca de dez anos andando. Ele carregava um bebé nas costas. Naqueles dias, no Japão víamos crianças com os irmãos ou irmãs nas costas, mas este menino era diferente. Eu podia ver que ele chegara àquele lugar por um motivo muito sério. Ele não usava sapatos. O seu rosto estava tenso. A cabecinha do bebé estava inclinada para trás como se estivesse dormindo profundamente. A criança permaneceu no local por cinco a dez minutos.
Segundo O’Donnell: A criança postara-se na frente de um grupo de homens que usavam máscaras brancas, responsáveis pela incineração dos corpos sem vida. Ele ficou diante deles, com o corpo erecto. Os homens de máscaras brancas foram até ele e, em silêncio, começaram a tirar a corda que segurava o bebé. Foi então que vi que o bebé estava morto. Os homens seguraram o corpo pelas mãos e pés e colocaram-no no fogo. A criança ficou ali sem se mexer, observando as chamas. Ele mordia o lábio inferior com tanta força que o lábio brilhava com sangue. A chama ardia baixa como o sol se pondo. A criança deu meia volta e afastou-se silenciosamente. Esta é a história por trás da fotografia que chocou o mundo. É mais uma, entre tantas imagens documentadas que deixam claro porque a catástrofe de Hiroshima nunca mais se pode repetir em qualquer lugar do mundo, disse Joe O’Donnell.
É uma cena pungente que revela a brutalidade do bombardeamento sobre as crianças, as que pereceram e as que sobreviveram. O olhar sofrido deste menino, órfão de dez anos, exprime uma imensa coragem ao levar o irmãozito ao local da cremação.
O custo humano do bombardeamento de Hiroshima foi de tal magnitude que ultrapassou em muito o que os cientistas de Los Alamos tinham previsto. Um terço da população da cidade foi morta no momento da explosão e posteriormente a ela.

AMANO Katsuko - Soldados regando corpos com combustível e cremando-os numa chapa de ferro galvanizada - Hiroshima Peace Memorial Museum GE01-33S
A bomba explodiu sobre o centro da cidade, obliterando prédios e pessoas num raio de 2 quilómetros, onde os corpos se volatilizaram sem deixar vestígios. Mas para lá do perímetro de 2 quilómetros a cidade ficou pejada de cadáveres.
Quatro dias após a explosão uma praga começou a alastrar pela cidade em ruínas: os habitantes ficavam prostrados com vómitos, sangramento da boca, decomposição da carne, queda de cabelo. As mulheres davam à luz prematuramente entre os escombros da cidade ainda em chamas. Os recém-nascidos não tinham a cor rosada de um bebé saudável, eram pálidos, brancos, cor da cera. Hiroshima estava a descobrir os terríveis efeitos da radioactividade.
As cinzas de 70.000 mortos não identificados, recolhidos e cremados ao longo das semanas em diferentes partes da cidade foram sendo amontoados num local que se transformou num memorial no Parque da Paz. Aqui os japoneses chegam em silêncio e, comovidos, deixam-se ficar curvados a orar.

O “Monte Memorial da Bomba Atómica” é uma pequena elevação relvada, formada pelas cinzas de 70 mil mortos não identificados.


A Escola Primária de Honkawacho ficava próximo do ponto zero do bombardeamento. Morreram 400 alunos e mais de 10 professores. O prédio de betão sofreu grandes danos, hoje é um Museu onde se aprende a importância da paz.

Maquete de danos físicos em pessoas e edifícios após a explosão da bomba atómica. Museu Memorial da Paz de Hiroshima.

O bombardeamento de Hiroshima não matou apenas japoneses, um número elevado de prisioneiros de guerra americanos e de países aliados foram mortos pela explosão da bomba.

Esta foto no Museu da Paz de Hiroshima mostra o terreno onde foram sepultados um elevado número de prisioneiros americanos e de países aliados, detidos em prisões da cidade, mortos durante o bombardeamento atómico.
A maioria dos prisioneiros eram pilotos e membros de tripulações aéreas abatidos em missões sobre o Japão, que estavam detidos em prisões e centros de detenção.
Segundo a publicação Children of the Atomic Bomb do Dr. James N. Yamazaki, estima-se que cerca de 3.000 cidadãos civis americanos também foram mortos e eliminados da história. Estavam em Hiroshima na altura do bombardeamento, a maioria eram mulheres e crianças, esposas e filhos de nipo-americanos que tinham ido visitar parentes, ficaram retidos na cidade pela guerra sem conseguirem regressar.
Os Hibakusha sobreviveram para uma vida de padecimentos, arrastando-se pelos anos com dolorosas enfermidades no corpo e na mente. Além das consequências físicas da exposição à radiação, que a longo prazo lhes provocaria leucemia e tumores malignos, tiveram ainda de lidar com a discriminação social da sociedade japonesa.
Sofreram traumas e pesadelos, ansiedade e depressão devido ao preconceito e estigma de os seus corpos padecerem com marcas visíveis da radiação, dificultando-lhes o acesso ao emprego, ao casamento e à integração social.
Hibakushas

Tsyuo Kataoka - Fotografia de Shomei Tomatsu Sumitery Taniguchi sofreu os efeitos da bomba. Ele exibe uma foto de si mesmo tirada em 1945. Foto: Eugene Hoshiko / AP
Muitos Hibakusha esconderam que eram sobreviventes da explosão nuclear com medo de serem prejudicados na obtenção de emprego. Os críticos diziam que estes sobreviventes se cansavam mais rapidamente que as pessoas saudáveis, e por serem mais lentos as empresas recusavam dar-lhes emprego.
Sunao Tsuboi enfrentou graves problemas de saúde, teve dois tipos de cancro e muitos internamentos. Mas diz que o pior foi o preconceito social: Na época os médicos diziam que todos os sobreviventes morreriam dentro de dois ou três anos. Ninguém escaparia. Por isso Sunao Tsuboi teve dificuldade em encontrar trabalho: As empresas tinham medo de perder um empregado ao fim de pouco tempo, preferindo contratar quem não tivesse sido exposto à radiação da bomba, explica.
Os Hibakusha também escondiam os seus afectos. A vergonha é um sentimento que permeia as relações sociais na cultura japonesa. Daí que namoros e casamentos com um ou uma Hibakusha fossem estigmatizados pelas famílias. Temiam que as mulheres dessem à luz monstros e que os homens fossem estéreis. Por muito tempo os Hibakusha sem cicatrizes visíveis mantiveram segredo sobre o seu estado, para evitar que os seus filhos e netos fossem ostracizados.
A senhora Chieko Kawashima era uma Hibakusha e recebeu um cartão que lhe garantia um atendimento especial no sistema público de saúde japonês. Todos os meses ela fazia exames ao sangue.
Mas o cartão que lhe garantia benefícios, também lhe trouxe problemas. Ela era uma criança pequena quando foi exposta à radiação. Cresceu a esconder o seu passado, mas o documento era prova do que lhe tinha acontecido. Disse ela: Havia muito medo na época; casei-me e não falei à família do meu primeiro marido que eu era uma Hibakusha. Um dia a minha sogra descobriu o meu cartão e expulsou-me de casa, acabando com o meu casamento. Ela dizia que não queria uma nora vítima de radiação, pois não queria ter netos com deformações”, conta Chieko Kawashima.
Hoje a senhora Kawashima tem mais de 70 anos e trabalha como guia no Museu de Hiroshima. Teve leucemia, mas curou-se. Casou uma segunda vez e deu à luz um menino saudável.
Próximo do Museu encontra-se o Memorial das Crianças. A lenda das garças de Sadako está expressa neste monumento, e refere-se à história de Sadako Sasaki, a menina japonesa que aos dois anos foi exposta à radiação da bomba atómica durante o bombardeamento.

A lenda é baseada num facto verdadeiro: Sadako Sasaki contraiu leucemia dez anos após o bombardeamento de Hiroshima. Para ter esperança de cura, ela inspirou-se na lenda das garças douradas.
Chizuko, amiga de Sadako, visitou-a no hospital e disse-lhe que na escola debateram a lenda da garça dourada que vive até aos mil anos. Ela acreditava que se Sadako dobrasse mil garças de origami em papel, elas lhe trariam sorte e a curariam da leucemia.
No Japão acredita-se que as garças trazem vida longa e boa sorte. Quando voam sobre cidades e campos, parecem sóis dourados brilhando no céu. Mas na manhã de 6 de Agosto de 1945, os mil sóis dourados que surgiram no céu de Hiroshima não foram as garças da vida, foi um dragão de morte e fogo do inferno.
A história diz que Sadako começou a dobrar garças na esperança de ser curada, mas faleceu aos dez anos antes de atingir o seu objectivo que era dobrar 1.000 origamis de garças. Dobrou apenas 644 antes de morrer. Os seus amigos completaram as 1.000 garças e as sepultaram com ela.
Amigos e colegas de Sadako juraram perante o seu caixão no velório, vir a construir um monumento em sua homenagem. O seu esforço desencadeou um movimento juvenil pela paz e uma campanha de recolha de fundos que se espalhou pelo Japão, transformando a garça de origami num símbolo internacional da paz. O Monumento no centro do Parque Memorial da Paz é a concretização desses esforços.
O Monumento é encimado pela figura de Sadako Sasaki de braços abertos erguendo uma garça, uma homenagem à juventude que morreu na explosão da bomba e, muito particularmente a Sadako Sasaki que veio a falecer mais tarde.
No dia em que visitei o Parque da Paz, centenas de jovens de escolas do Japão visitavam o monumento, homenageando Sadako Sasaki. O Monumento está cercado por cabines com milhares de origamis de garças em papel, doados por crianças de todo o mundo.




Nos dias de hoje, PAZ é a palavra mais escutada e lida na cidade de Hiroshima. Monumentos, parques, museus, edifícios com significado, lembram-nos a todo o momento a importância de viver em paz sem a ameaça da guerra, sem a ameaça da tragédia nuclear.
Percebe-se porquê.

“Portões da Paz” em Hiroshima, são feitos de vidro, foram doados à cidade no 60º aniversário do bombardeamento atómico. Foram projectados por Clara Halter e Jean Michel Wilmote. A palavra PAZ está inscrita nos painéis em 49 idiomas e 18 alfabetos.

No Museu Memorial da Paz há um Relógio digital com 3,1 metros de altura, doado ao museu por uma organização pacifista em 2001, no 56º aniversário do bombardeamento a Hiroshima, na esperança de que se reduza o número de testes nucleares, e se pare com a construção de mais armas atómicas. O relógio é reiniciado sempre que um novo teste nuclear é realizado por qualquer nação com capacidade atómica. Serve como permanente alerta para os perigos das armas nucleares, e procura despertar a consciência humana para a necessidade do desarmamento atómico. No dia em que visitei o Museu, o relógio marcava 28.933 dias desde o bombardeamento do B-29 a Hiroshima, e 162 dias desde o último teste nuclear no mundo.

O Relógio da Paz em Hiroshima é um memorial formado por uma torre de 20 metros de altura, com três pilares de ferro que se torcem em 60 graus, com um relógio esférico no topo. Situa-se no Parque da Paz, próximo do ponto-alvo do bombardeiro B-29, a ponte Aioi em forma de “T” no centro da cidade. O carrilhão da torre toca todos os dias às 8h15, o momento em que a bomba atómica explodiu e atingiu a cidade. É um convite à reflexão pela paz mundial, um apelo à humanidade para que aquela tragédia nunca mais se repita.
Na passada manhã de 6 de Agosto de 2025, cerca de 55 mil pessoas que incluíam dignitários japoneses, sobreviventes do bombardeamento, população da cidade, representantes de 120 nações e regiões, participaram na cerimónia deste ano no Parque Memorial da Paz de Hiroshima. Reuniram-se para orar e recordar o momento em que um bombardeiro americano lançou há 80 anos a bomba atómica sobre a cidade.
Às 8h15, hora exacta da explosão atómica, o “Sino da Paz” tocou, reverberando no coração dos japoneses. No Parque da Paz e em toda a cidade de Hiroshima, os japoneses pararam e fizeram um solene minuto de silêncio.

Fonte: Esq. David Mareuil / Agency Anadolu - Drt. Kim Kyong/Reuters
Em Junho, Hans Christensen, investigador sénior do Instituto Internacional de Investigação da Paz de Estocolmo, afirmou: Estamos a assistir a uma clara tendência para a expansão dos arsenais nucleares, para a escalada da retórica nuclear e para o desmantelamento dos acordos que costumavam regular esta área.
O actual arsenal nuclear mundial é estimado em mais de 12.000 ogivas nucleares, (12.000 Hiroshimas com superior poder de destruição) detidas por nove países: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel, segundo o Instituto de Estocolmo.

Museu Memorial da Paz de Hiroshima

Chama da Paz e Cenotáfio no Parque da Paz de Hiroshima Fonte: The Mainichi
O prefeito da cidade, Kazumi Matsui destacou a resistência dos Hibakusha para narrar as suas memórias da tragédia, e reforçou o apelo pelo fim das armas nucleares.
Hiroshima é uma chaga viva no coração do Japão e do mundo inteiro civilizado. Museus, organizações e indivíduos mobilizam-se para manter as histórias do holocausto nuclear bem vivas.
Um deles é Shun Sasaki, guia no Parque Memorial da Paz que ajuda a transmitir o horror do ataque à sua cidade natal e as suas consequências. Desde Agosto de 2021, que este jovem de 12 anos conversa com os turistas estrangeiros: Eu estava conversando com um americano e ele disse que agora acha que devemos proibir todas as armas nucleares. Isso me deixou feliz, porque quando ele for embora se contar a verdade sobre Hiroshima para alguém, e depois essa pessoa contar para outra pessoa, a mensagem de paz espalhar-se-á pelo mundo fora, disse ele, cheio de esperança.
Sasaki foi escolhido para falar na cerimónia dos 80 anos do bombardeamento, como representante das crianças comprometidas com a paz no Japão.

O prefeito de Hiroshima, Kazumi Matsui (à direita), coloca no Cenotáfio a lista actualizada com os nomes das vítimas da bomba atómica. Kim Kyung Hoon - Reuters
O Memorial das Vítimas da Bomba Atómica é um monumento evocativo que consiste num arco cobrindo um Cenotáfio – sepultura vazia. Essa sepultura de pedra tem um registo em permanente actualização dos nomes das pessoas que morreram por causa da bomba atómica, desde 1945 até aos dias de hoje.
O prefeito de Hiroshima, Matsui Kazumi, colocou no Cenotáfio a lista actualizada dos falecidos. Actualmente são homenageados 349.246 nomes, incluindo as 4.940 pessoas que morreram nos últimos 12 meses. O arco em forma de “U” invertido pretende proteger as almas das vítimas registadas no Cenotáfio. Presentemente, apenas 99.130 Hibakusha sobreviventes da bomba atómica estão vivos. À medida que o tempo passa, fica mais difícil ouvir deles as suas histórias de sobrevivência.
O Cenotáfio contém um epitáfio que nos convoca à reflexão:
“Que as almas descansem em paz, nós não repetiremos o erro.”


Todos os anos, no dia 6 de Agosto, aniversário do bombardeamento atómico, é realizada uma cerimónia pela Paz no Parque Memorial onde as vítimas são lembradas e a Declaração pela Paz é proclamada. A imagem é um alinhamento que parte do Museu, cruza o Cenotáfio e a Chama da Paz e termina na ruína do Dome Atómico.
A Chama da Paz no centro do Parque está acesa continuamente desde 1 de Agosto de 1964. Ela simboliza o compromisso antinuclear de “manter a chama acesa até o dia em que todas as armas nucleares desapareçam da Terra.” O pedestal que sustenta a chama representa duas mãos com as palmas abertas para o céu.
Harold Jacobsen, um dos cientistas do Projeto Manhattan, afirmara que depois do bombardeamento Hiroshima ficaria inabitável por mais de 70 anos.
Nada disso aconteceu. No Outono de 1945 as ervas daninhas começaram a brotar no solo da cidade, contrariando as expectativas dos peritos de Los Alamos. E no verão seguinte, um oleandro renasceu e cresceu, e árvores de cânfora com centenas de anos voltaram a dar brotos. As duas plantas foram mais tarde celebradas como a flor e a árvore oficiais de Hiroshima, considerados símbolos de resistência e perenidade.

Hiroshima em Outubro de 1945, Abril de 1946, Dezembro de 1948 e Fevereiro de 1953. Foto: Yoshita Kishimoto/Museu Memorial da Paz de Hiroshima


Dos escombros do ataque atómico Hiroshima renasceu das cinzas como a Fénix, para se tornar um poderoso símbolo de paz e modernidade. A reconstrução não foi apenas física, mas também simbólica. Hiroshima reergueu-se de um lugar de morte e destruição para se transformar numa cidade moderna, tecnológica, tendo como foco primordial a promoção da paz mundial e o fim das armas atómicas.
A educação sobre a paz começa cedo em Hiroshima. As escolas têm a Semana Anual da Paz, onde os alunos aprendem sobre o passado da cidade e a importância de viver sem guerra. Durante as férias de verão, muitos estudantes trabalham como guias voluntários para estrangeiros no Parque Memorial, passando a mensagem de que é um dever de todos nós trabalharmos para que a tragédia de Hiroshima não seja esquecida e nunca mais se repita.
Ao deixar Hiroshima faço-o com um sentimento de admiração e respeito pelo caracter e força dos japoneses que reergueram a sua cidade de uma planície de escombros para a pujança de uma urbe muito moderna.
Não se visita Hiroshima impunemente. Percorri os locais da tragédia nuclear, falei com pessoas e senti um acréscimo de compaixão e empatia, uma espécie de “Efeito Hiroshima” – como dizem os japoneses – que nos torna visceralmente despertos para a brutalidade do que aqui aconteceu.
Reflicto muito nos testemunhos e evidências deixados pelo bombardeamento atómico que me foi dado conhecer de perto.
Interrogo-me: Que Homo Sapiens dito civilizado é este, que se comporta como um predador sem alma, capaz de devorar outros seres humanos que com ele habitam e convivem no planeta Terra?
Não sou ingénuo ao ponto de ignorar como tudo começou. Há um nexo de causalidade que liga Hiroshima e Nagasáqui ao ataque japonês à base naval americana de Pearl Harbor, no Havai, em 7 de Dezembro de 1941. Contudo as hostilidades do Japão na Ásia começaram muito antes, em 1937. O Japão militarista governado pelo general Hideki Tojo foi um agressor que cometeu cruéis atrocidades sobre os povos invadidos. Com o seu ímpeto imperialista invadiu a Coreia e a Manchúria, na China, dando inicio à 2ª Guerra Mundial no Pacífico, dois anos antes dela começar na Europa.
Porém, o Japão de hoje é uma nação muito diferente da do passado. É uma monarquia constitucional. A Constituição do Japão do pós-guerra ou “Constituição Pacifista”, como é conhecida, é a lei fundamental do país, promulgada em 1947. Estabelece um regime democrático parlamentar com um imperador simbólico, sem poderes governamentais. No seu Artigo 9, a Constituição estatui que o Japão renuncia ao direito de guerra e à manutenção de forças militares, estando a soberania popular concentrada no poder da Dieta (parlamento), e no Gabinete (poder executivo), com um poder judicial independente (Tribunais). E estabelece que o verdadeiro poder reside na vontade do povo japonês quando elege os seus representantes para os órgãos de governo.
Contudo, a ferida de Hiroshima permanece.
Percorre-me um sentimento de compaixão ao olhar a cidade mártir de perto, ao testemunhar a tragédia que a devastou, ao tomar consciência do seu infindo sofrimento, a sua dor e a sua perda.
Hiroshima tornou-se um marco, um memorial de paz que transmite uma mensagem de tolerância e humanidade.
Ao vincular-me às histórias de sobrevivência e ao padecimento das vítimas, acode-me um súbito lampejo de amor pela cidade.
Regressei uma pessoa diferente.
Cheguei a Hiroshima como visitante curioso, parti de coração magoado. Regresso mais consciente sobre as ameaças que pairam sobre a Humanidade, quando nos intimidam de novo com o uso de armas nucleares. É nosso dever não ficarmos calados perante quem nos ameaça. É preciso denunciar. É preciso falar de Hiroshima.
A introdução da arma atómica como arma estratégica de terror, modificou os seculares equilíbrios entre as nações. Para que o holocausto atómico não se repita, duas medidas são necessárias: parar os testes nucleares (o relógio de Hiroshima revela que o último teste foi há 162 dias), e reactivar o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares.

A Ilha de Miyajima na baía de Hiroshima é célebre em todo o Japão pela Porta Sagrada do grande “Torii” Xintoista do Santuário Itsukushima; os japoneses de Hiroshima vêm a esta ilha orar pela Paz.
Talvez seja utopia no curto e médio prazo pensar em desarmamento nuclear, mas a longo prazo é para aí que as pessoas de bem devem orientar os seus esforços, sem nos cansarmos em nenhum momento de falar a amigos e vizinhos, a gente próxima e distante sobre o drama da cidade de Hiroshima.
Ao deixar a cidade olhei de novo para o alto, para o céu nublado por cima de Hiroshima. Não vislumbrei a silhueta do B-29, Enola Gay. Não estava lá.
Mas um frio na espinha percorreu-me de cima abaixo.
Sigamos o exemplo de Shun Sasaki: Se contarmos a verdade sobre Hiroshima para alguém, e depois essa pessoa contar para outra pessoa, a mensagem de paz espalhar-se-á pelo mundo fora.
E o “Efeito Hiroshima” talvez se enraíze em cada ser humano.
Então talvez faça sentido o epitáfio no Cenotáfio, a urna contendo 349.246 nomes de japoneses mortos pela bomba atómica:
“Que as almas descansem em paz, nós não repetiremos o erro”.

Nesta Crónica do Japão gostou de conhecer a história de Hiroshima, cidade de Paz, com as suas múltiplas narrativas de tragédia e sobrevivência?
Se gostou parta para a acção como divulgador(a) de Paz: comece por dobrar um origami de papel em forma de Garça com a palavra “Paz”, e ofereça a a um amigo ou amiga juntamente com esta crónica.
Peça lhe para repetir o gesto, dobrando novo origami para o oferecer a outra pessoa, recomendando que não quebre a cadeia, para que a mensagem de Paz chegue a todas as pessoas de boa vontade, seguindo o desejo de Shun Sasaki.
Eu gostaria muito de receber a sua opinião sobre o que leu e descobriu nesta Crónica, saber o que pensa, o que descobriu sobre esta extraordinária cidade. Escreva-me, sinta o “Efeito Hiroshima”, partilhe o seu sentimento comigo.

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