Alguma vez viu erguer uma azenha para recolher água do rio e regar os campos de milho?

Se nunca passou pela experiência de ver uma aldeia oferecer a dádiva do seu trabalho para ajudar os vizinhos a “Lançar a Roda”, proponho-lhe a leitura de “No rio gemia uma azenha”, uma história de adultos, vista pelo meu olhar de criança.

#21 No rio gemia uma azenha

A água naquele chafariz corria desde o tempo da monarquia. A minha mãe já recolhia água naquela fonte para lavar roupa muito tempo antes de eu vir ao mundo. Os meus avós já enchiam os cântaros naquele fontenário ainda a minha mãe não tinha nascido. Os meus bisavôs que eu e a minha mãe não conhecemos, já levavam o gado a beber na água que corria para o bebedouro dos animais.

Gerações de camponeses derreados pela ceifa do trigo mataram a sede naquele chafariz, espécie de poço no deserto, aguardando por quem vacilasse na secura.

João Batista, na Galileia, lavava os pecados dos aldeões mergulhando-os nas águas do Jordão. Eu e os miúdos da minha idade que não tínhamos pecados, somente traquinice, mergulhávamos no tanque do fontanário onde as mulheres lavavam a roupa. Emergíamos da água, galhofeiros e ensaboados, pardalitos aos saltos escorrendo sabão e espuma da cabeça.

O fontenário era um bloco de granito rectangular de onde saía um cano com uma torneira. Pobre na arquitectura, rico na abundância da água, saciava a aldeia e era ponto de encontro das mulheres a encher o cântaro e a partilhar mexericos.

Quando tomei corpo e força para transportar ao ombro o cântaro de barro cheio de água, a minha mãe que trabalhava de sol a sol, deu-me por missão passear o cântaro de vinte litros entre o chafariz e a cantareira da casa.

Nesse meu ir e vir eu provia a água para a panela do caldo e a bacia das lavagens. Percorria uma distância bárbara, difícil para um fedelho que caminhava descalço e era pouco maior que a vasilha que transportava. Rodilha de pano no ombro, eu carregava o cântaro aos solavancos, a água a ondular e a cair-me pelas costas abaixo, deixando-me exausto e ensopado: um aguadeiro a beber sem vontade e sem ter sede.

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