Em dias de muito calor gosta de beber água fresca?
De certeza que gosta.
Agora imagine que tinha de ir buscá-la à nascente e ser humilhado de cada vez que enchia a bilha.
Espero que nunca passe por essa experiência. Na história de hoje trago-lhe “Uma bilha de água fresca”, uma história do Verão da minha infância.
#23 Uma bilha de água fresca
A minha aldeia era um povoado onde habitava gente muito desigual. Nela viviam duas famílias muito ricas, umas dezenas remediadas, umas dezenas pobres; e havia ainda os mais pobres dos pobres sem terem onde cair mortos.
A aldeia não tinha água canalizada. As casas dos ricos e dos remediados tinham água que corria a partir de poços na beira das casas. Os pobres, esses, abasteciam-se com cântaros no chafariz da aldeia.
Mas no Verão a água do chafariz era tépida e não satisfazia toda a gente. Não havia frigoríficos, geladeiras nem água fresca. No Verão a solução era recolher a boa água fresca de uma nascente que brotava das entranhas da terra, saindo ininterruptamente por um cano, dia e noite.
Encher a bilha de barro com a água que saía dessa nascente e levá-la para casa, era comum fazer-se desde há muito, muito tempo. Bebermos dessa bilha de barro a ressumar frescura, dava-nos força para enfrentar a mais tórrida das canículas.
Só que…
O cano de água fresca ficava na entrada do casarão apalaçado do latifundiário mais rico. O homem representava o regime do Estado Novo no concelho. Fora nomeado para presidente do município, presidente do grémio, presidente dos bombeiros, tinha quilómetros de olivais e pinhais de rezina, vinhedos a perder de vista, lagar de azeite, lagar de vinho, uma imensidão de campos de milho cultivados por rendeiros pobres, como a minha avó.
O homem era um senhor feudal. Num tempo de automóveis e aviões deslocava-se numa charrete puxada por um cavalo, conduzida por um cocheiro, um dos muitos criados e criadas que trabalhavam no casarão para servir a fidalguia.
Só que…
Para aceder à desejada água da nascente que corria livremente do cano, era preciso flanquear o portão de ferro de acesso à quinta, percorrer o arruamento central ladeado de roseirais e buxos, e passar frente aos janelões do casarão para ser controlado pela matrona da casa, esposa e braço direito do todo-poderoso. Por gerações, esse acesso nunca fora negado ao povo da aldeia.
A água que saía do cano corria livremente para um tanque onde nadavam patos, e perdia-se pela encosta até ao pequeno ribeiro que corria lá no fundo
Só que…
Naquele Verão, quando a minha avó se deslocava com a sua bilha de três litros para a encher de água fresca da nascente, foi surpreendida pela matrona da casa a vigiar de binóculos os trabalhadores da quinta. A austera senhora determinou que a partir de então, para poder encher a bilha, a minha avó tinha de a trazer cheia com água do chafariz da aldeia, despejá-la no tanque dos patos, e só depois a poder encher de água fresca.
Uma exigência absurda.
Três litros de água numa bilha, uma insignificância. Não havia falta de água, a nascente corria livremente dia e noite para o tanque e para encosta até ao ribeiro. Obrigar a minha avó que lhe cultivava um campo de milho como rendeira, a trazer a bilha com água do chafariz e despejá-la no tanque que transbordava, era uma humilhação.
Quando cresci e no Verão a minha mãe me pedia para ir buscar água fresca à nascente do senhor feudal, recomendava-me sempre: filho não te esqueças de primeiro passares pelo chafariz e encher a bilha. Eu passava pelo chafariz, mas a bilha de três litros nunca ia cheia. Se levava um bochecho de água no fundo, já era muito.

Subscreva a newsletter
Preencha o formulário abaixo e receba todas as semanas histórias e novidades diretamente na sua caixa de e-mail.
*os campos assinalados são de preenchimento obrigatório

