Alguma vez calçou uns sapatos maiores que os pés? Conhece a sensação de dar passos e sentir que vai perder o calçado?

Se nunca passou por essa experiência proponho-lhe a leitura de “Sapatos maiores que os pés”, uma história da minha infância quando calcorreava os caminhos descalço.

#22 Sapatos maiores que os pés

Estávamos em Agosto, a tia velhota condoeu-se com as misérias dos meus pés. Por tanto caminhar descalço os meus pés gemiam com golpes e arranhões. Uma criança de nove anos devia ter os pés protegidos, mas eu só tinha os caminhos e os pinhais para me aguilhoar com espinhos e golpes de vir às lágrimas.

A tia ofereceu-me um calçado desgastado do filho que tinha vinte e tal anos a mais do que eu. Os pés calejados dançavam dentro daqueles sapatos de adulto. Atulhei-os com jornais velhos para dar aperto e não me fugirem dos pés. Caminhava desajeitado qual Charlie Chaplin de andar burlesco.

O meu pai sempre andou ao contrário dos ponteiros do relógio. Raramente acertava nas decisões. Quando não tinha trabalho nem dinheiro produzia carvão vegetal num forno artesanal coberto de terra. 

Lembrou-se no pino do calor de Agosto erguer um forno descoberto no pinhal ressequido. Naquele dia não era um forno, mas uma cova onde depositava lenha para carbonizar e transformar em carvão miúdo.

Tinha tudo para correr mal. E correu. 

As labaredas escaparam-se da cova e pegaram fogo ao coberto vegetal em redor. O pinhal estava pronto para ser consumido num gigantesco braseiro.

Em desespero o meu pai pegou em ramos de pinheiro e atirou-se ao fogo tentando dominar as chamas descontroladas que alastravam por arbustos e caruma. Eu imitei-o fazendo o mesmo.

Pela primeira vez experienciei o que se assemelha ao calor do inferno. Estava de calções e sapatos de adulto, e o calor projectado pelas labaredas atacou-me a pele descoberta com inaudita intensidade. A cara parecia derreter num intolerável escaldão. O meu pai gritava para eu fugir enquanto atirava com fúria e desembaraço pazadas de terra sobre as línguas de fogo.

Ao fim de muita luta as chamas foram controladas. 

Salvou-se o pinhal.

Finaram-se as botas do meu pai.

Arderam e encarquilharam. Reduziram-se de tamanho tornando impossível lá manter os pés. Descalçou os restos, expondo os pés enfarruscados. Metia dó vê-lo caminhar descalço, a coxear, os pés abrasados pela fogueira.

Descalcei os meus sapatos de homem grande e dei-lhos para ele calçar. Recusou. Eu insisti até ele aceitar. Serviam-lhe na perfeição. Regressámos a casa sem carvão. O meu pai sem botas. Eu sem sapatos. Descalço. Estava habituado, embora me custasse.

Quando dias depois a minha tia me viu de pés nus, perguntou-me pelos sapatos que me oferecera. Estavam grandes para os meus pés, disse-lhe. Não tive coragem de dizer-lhe que andavam nos pés do meu pai, por ser imprudente e não ter bom senso.

Subscreva a newsletter

Preencha o formulário abaixo e receba todas as semanas histórias e novidades diretamente na sua caixa de e-mail.

*os campos assinalados são de preenchimento obrigatório