Lembra-se quando viu uma televisão pela primeira vez?
E recorda-se do programa nesse dia de descoberta?
Se não se lembra, trago-lhe “Uma cadela chamada Lassie”, uma história de quando pasmei frente à caixa que mudou o mundo.
#24 Uma cadela chamada Lassie
Era Domingo, de manhã iam à missa, à tarde visualizavam o filme que os encantava. De manhã sentavam-se na igreja, à tarde enchiam o Café Central. De manhã encaravam o padre com enfado, à tarde empolgavam-se com as correrias da cadela Lassie. Durante a semana labutavam de sol a sol, ao Domingo maravilhavam-se com aquela estranha caixa de imagens.
Estávamos em 1959. O Café Central atraía mais gente do que borboletas para uma luz acesa, mais gente do que os sermões do senhor prior. Eu ouvia os adultos falar com admiração dessa coisa de que não sabiam pronunciar o nome e chamavam de trevisão. Falavam de um cão – que afinal era cadela – que aos Domingos à tarde aparecia correndo pelo campo ao chamamento de um catraio sorridente.
Via-os passar na aldeia trajados com roupa domingueira, bem diferente das vestes puídas com que labutavam a semana. Caminhavam para a vila, galhofeiros, antecipando o momento em que a caixa de imagens se iluminasse para os presentear com as aventuras da vistosa Lassie.
Eu não ficava indiferente às novidades de que ouvia falar, sentia-me curioso, aliciado por esse intangível chamamento. A minha aldeia ficava na periferia da vila e, num certo Domingo, não resisti ao apelo. Sem a minha mãe dar por isso escapuli-me de casa e fui espreitar o mundo novo que havia no Café Central.
De pé, num canto, em cima de um caixote, porque os adultos abarrotavam cadeiras e mesas, recantos e corredores, descobri que a parede por cima do balcão tinha uma janela que se abria para espreitar o mundo. Um mundo que se podia contemplar para lá das serras e dos pinhais, para lá do rio e da estrada que se perdia na lonjura.
Um mundo que desafiava o meu entendimento.
Vi o mar pela primeira vez, não sentado no areal da praia, mas de pé, num canto do Café Central. Vi um cão – que era afinal era cadela – correndo ao encontro de um moço da minha idade, e de uma família que expressava harmonia e sorrisos.
E fantasiei um inocente desejo:
Havia de contemplar o verdadeiro mar, aquele que ressumava maresia. E ter uma família sorridente para me abrigar nos dias de temporal.

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