Hoje trago-lhe “No céu via-se o fim do mundo”, a história que apavorou uma velha pastora, incapaz de compreender os sinais que pairavam no alto.

#29 No céu via-se o fim do mundo

Em 1704, Isaac Newton escreveu uma carta em que estabeleceu uma data para o fim do mundo. No século 14 Dante Alighieri, no seu poema a Divina Comédia, representou o fim do mundo pela viagem da alma ante a morte e o julgamento.

Aos 70 anos a velha Bernarda que nunca frequentara a escola, ignorava os números, as letras e a leitura, olhou o céu e viu o fim do mundo por cima da cabeça.

Fugiu apavorada com o que contemplou. Largou o rebanho que pastoreava e enfiou-se debaixo da ponte do ribeiro, um espaço acanhado atulhado de silvas e paus.

A minha avó contava-nos que o rebanho ao ver-se livre da Bernarda abandonou a erva rasteira da berma da estrada e entrou pelas hortas pujantes de couves, feijoeiros, alfaces, nabiças e hortícolas que cresciam viçosas com a água do ribeiro.

Ao cair da noite o rebanho regressou farto ao povoado, depois de se ter saciado com o que de mais tenro e verdejante crescia nas hortas da vizinhança. 

Da Bernarda nem sinal.

O povo saiu para a noite de tochas na mão em busca da idosa senhora. Apesar da idade não se lhe conheciam achaques incapacitantes que a levassem a abandonar o rebanho. Podia ter caído num buraco, diziam uns; podia estar prostrada na valeta com um súbito desmaio, diziam outros.

Bernarda! Gritavam para a escuridão. 

Bernarda, onde andas mulher? Clamavam as vizinhas aflitas. 

Onde raio se terá metido a velha? Vociferavam os descontentes depois de espreitarem para a boca dos poços buscando sinais de afogamento.

A minha avó mantinha-nos em suspenso com a narrativa, refreava a nossa curiosidade e atrasava o desfecho, prolongando a tensão da história pela entoação da voz, pelo gesto das mãos, pelo domínio da sua ancestral oralidade. 

Então, deixou escapar: 

“E por fim lembraram-se de espreitar para debaixo da ponte do ribeiro, alumiaram o buraco atulhado de silvas, e viram-na toda encolhida”.

A Bernarda parecia um Cristo, cara e mãos arranhadas, saia rasgada pela precipitação da fuga, gemia dobrada sobre si mesma, olhos arregalados por um primitivo pavor. 

Pregada ao leito do ribeiro a Bernarda não se movia. Tiveram de ceifar o silvado para a retirar e dar-lhe o conforto de um cobertor.

Bernarda era uma velha carregada de anos para quem o mundo conhecido esbarrava nos serros abrangidas pelo olhar. Desses limites serranos surgiam de tempos a tempos demónios e seres tinhosos roncando pelos ares para apoquentar gente simples e pobres de espírito. Ela nunca se deparara com esses mostrengos, mas ouvira falar deles. Ai Jesus, que nunca me aconteça tal coisa. Benzia-se para que a Senhora dos Aflitos a protegesse desse demoníaco encontro. 

Mas naquele dia, distraída com o rebanho, Bernarda foi surpreendida por esse demónio a roncar no alto, a aproximar-se dela. Ergueu os olhos apavorada, e em vez de pássaros deparou-se com o voo ronceiro do modesto biplano monomotor, revestido de arames e tela. Nunca vira tal coisa.

Aquilo era o fim do mundo.

O fim do mundo a avizinhar-se do rebanho. Se calhar para a vir buscar. Punição de pecadora? Quem sabe! Benzeu-se uma e outra vez, que a Senhora dos Aflitos a protegesse e a não deixasse levar. Já se deparara com cobras e lobos, escorpiões e milhafres querendo roubar-lhe os cordeiros do rebanho, nunca com aquele prenúncio de mal a vir do céu, a que só ouvira falar a gente com a voz embargada. Um monstro com asas arrastando-se a engolir o ar, aguentando-se no alto sem se esbarrondar no chão. 

Aquilo era impossível de acontecer. No alto só andavam os pássaros e os anjos. Antes que aquele demónio lhe lançasse as garras e a levasse, abandonou o rebanho e correu atirando-se para o silvado sob a ponte. Ali não conseguia chegar-lhe.

E deixou-se ficar. A benzer-se. A rezar para a Senhora dos Aflitos lhe perdoar os pecados, se os tivesse, e protege-la naquela aflição. Que o fim do mundo fosse para longe e não lhe deitasse as garras. Que a deixasse em paz. Que a deixasse em paz. 

Subscreva a newsletter

Preencha o formulário abaixo e receba todas as semanas histórias e novidades diretamente na sua caixa de e-mail.

*os campos assinalados são de preenchimento obrigatório