Se já se abeirou do peitoril da janela num prédio alto, sentiu vertigens e um formigueiro no estômago, é porque é humano, um simples mortal. Os anjos não são acometidos por essas fraquezas terrestres, venceram a gravidade, olham do alto com a serenidade das águias.

Senti essa plenitude quando abri as minhas asas à porta da igreja, quando a população vendo a procissão deslizar pelas ruas reparou em mim cheia de inveja. 

Eu era o ser alado que as fazia vibrar de emoção, reconheciam-me pelas feições do rosto e não queriam acreditar: o quê, aquele puto ranhoso, aquele zé-ninguém filho de um bêbado, aquele pé descalço de merda, é um anjo na procissão? 

Era sim senhor. Eu era um anjo, e preparava-me para me alcandorar nas alturas.

Lê esta história de vida “Já fui um ser alado” e, se fores capaz, voa alto, sem vertigens nem formigueiro no estômago.

#3 Já fui um ser alado

 Aos 4 anos fotografaram-me com umas asas fixadas nas costas. Vestido de branco. À porta da igreja. No dia da procissão.

Na Antiga Pérsia havia um ser alado bem estranho e poderoso: tinha corpo de touro, cabeça humana, garras de leão e asas de águia. Adornava a entrada de templos e palácios. 

De asas abertas eu adornava a porta da igreja. 

Imortalizado na fotografia sépia.

Era um anjo.

As asas cresciam-me das costas, entreabriam-se sobre os ombros e elevavam-se pujantes acima da cabeça.

Na procissão seguiam outros anjinhos, caminhavam solenes ao som da música da filarmónica, mas nenhum tinha umas asas vigorosas como as minhas. As deles eram asas raquíticas, encolhidas, envergonhadas. Não era preciso ser perito em aerodinâmica e técnicas de voo para perceber que aqueles seres meio encolhidos nunca voariam alto, nunca sairiam do chão.

Eu era diferente. Era um ser alado.

Dava nas vistas.

Na rua os curiosos apontavam para mim e comentavam a envergadura das asas. Nas janelas as olheiras debruçadas sobre colchas a adejar nos peitoris, apontavam para mim, batiam palmas e atiravam pétalas de flores.

Suspenso das minhas asas eu caminhava altivo e solene nos meus quatro anos ao som da filarmónica. Os pés mal tocavam as pedras da rua, os sapatos remendados roçavam o chão com delicadeza. 

Vencera a gravidade, caminhava em direcção ao céu. 

Caminhava numa elevação para mim mesmo.

Era um anjo. Um ser alado. 

Conquistara a imortalidade.

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