Hoje trago-lhe “Uma mulher de coragem”, uma história da heroína da minha vida – a minha mãe – que num certo dia se viu perante uma situação dramática que só ela podia resolver, mais ninguém.

#30 Uma mulher de coragem

Num certo dia de frio na década de cinquenta do século passado, a minha mãe dava de comer aos pintos quando ouviu um grito lancinante. Não era um grito qualquer, sequer um clamor desconhecido. O grito foi directo ao coração como farpa afiada, reconheceu-o como coisa sua, era o grito do meu irmão, dois anos mais novo.

O grito do filho. Por isso lhe doeu.

Desvairada correu para o exterior do pátio e deparou-se com uma cena de horror: o meu irmão gritava com uma forquilha cravada no pé. Ele no chão, caído de costas, a forquilha ao alto. Um dos dentes da forquilha entrara junto ao dedão e saíra pelo calcanhar. O sangue esguichava como de um cano roto.

A minha mãe estava só. 

Ninguém a quem implorar ajuda. Era um tempo em que não havia telefone para pedir auxílio, nem número de emergência. Não havia sequer electricidade na aldeia. Não havia INEM nem ambulância de socorro. Não havia Serviço Nacional de Saúde a quem recorrer. Não havia um vizinho com automóvel a quem suplicar transporte, só carros de bois e uma estrada de terra batida. A minha mãe estava só. 

No chão o meu irmão esvaía-se numa perigosa hemorragia.

A forquilha rasgara-lhe o pé de uma ponta à outra.

Naquele dia a aldeia estava sombria, contraía-se sob nuvens escuras. Ameaça de chuva, talvez. Sinais de desgraça pairando sobre o meu irmão, se calhar. Na vida defrontamo-nos com crises, indeléveis momentos que nos marcam para sempre. Um dia talvez os netos ouçam falar da coragem desta mulher extraordinária: a minha mãe.

Estava frio, mas perante aquele cenário de horror um súbito fogo abrasou o corpo franzino da minha mãe. Ajoelhou-se junto do meu irmão. Com a mão esquerda segurou-lhe o pé. Com a direita apertou a forquilha.

E deu um puxão. 

O meu irmão gritou. A forquilha mal se moveu. Os ossos, os ligamentos do pé abocanhavam o dente de ferro. As forças da minha mãe pareciam abandoná-la. Um vislumbre de desmaio assombrava-lhe o olhar. As lágrimas brotavam em desespero. A mão que bloqueava o pé avermelhava-se com sangue. De novo o segurou com redobrada firmeza.

Deu um grito de raiva e um puxão na maldita forquilha. A baioneta de ferro deslizou avermelhada do pé de onde se soltaram gorgolejos de sangue. 

A minha mãe desapertou o avental, rasgou-o em duas metades e envolveu o pé. Apertou, apertou o mais que pôde até estancar a hemorragia. 

Depois gritou por ajuda. 

Ninguém apareceu.

Pegou no choro e nos oito anos do meu irmão e levou-o ao colo pelos caminhos até à vila onde existia o velho hospital da Misericórdia. Levou-o enganchado na anca ou pendurado nos ombros. Parava para descansar, voltava a pô-lo no regaço ou enganchado na cintura, ou suspenso nas costas e seguia adiante. Trocava de posição, parava, carregava com ele e chorava de impotência de cada vez que tropeçava nos desníveis do carreiro que se empinava, fazendo-a ir de mãos ao chão. 

A minha mãe sentia-se só. Desamparada.

Arrastava-se sem forças, sem ninguém vir em seu auxílio e em socorro do meu irmão, nem vizinhos, nem familiares, nem sequer os poderes públicos instalados que deviam cuidar dos seus. 

Que tempos de miséria aqueles!

Percorreu quilómetros de caminhos por lameiros e pinhais até à porta do hospital. Quando a viram chegar derreada pelo filho, a roupa manchada de sangue, ficaram na dúvida de quem precisava de socorro, se a mãe, se o filho. 

O bom doutor, o único disponível naquele dia levou o meu irmão para ser tratado. A minha mãe pediu um copo de água e tombou num banco, exausta, sem réstia de energia, sem pinga de lágrimas para chorar.

A História regista feitos de mulheres de renome que deram nomes a ruas e escolas, raramente narra a coragem de mulheres do povo, gente simples, desconhecida, que em momentos de grande aflição e catástrofe se transcendem em força e ousadia.

Como a minha mãe. Franzina de corpo, pujante de coragem.

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