Hoje trago-lhe “O lagar de azeite”, uma história da minha infância, no tempo em que eu trabalhava à jorna na apanha da azeitona, e à noite ia espreitar o lagar onde se preparavam tibornas de azeite.

#31 O lagar de azeite

No lagar de azeite do homem mais rico da minha aldeia moía-se azeitona dia e noite. O meu pai trabalhava no lagar, a minha mãe e um rancho de gente assentavam esforços nos olivais do latifundiário. Os homens açoitavam as oliveiras com varas, as mulheres apanhavam do chão a azeitona que caía fora dos toldos.

Naquele ano fizeram de mim assalariado-criança para a campanha da azeitona, era mais um par de mãos a colher do chão molhado pela chuva de inverno o fruto das oliveiras. A azeitona seguia depois em carro de bois para o lagar para ser esmagada e transformada em azeite.

Eu escutava os comentários dos lagareiros que após o trabalho se refastelavam em tibornas de bacalhau e batatas assadas nadando em azeite novo, cheiroso, onde ensopavam o pão tostado, uma iguaria que punha a salivar quem os ouvia. 

Então, ao princípio da noite eu ia num andar furtivo até ao lagar de azeite para uma singela ceia. Levava um resto de pão e um punhado de batatas, e quando apanhava o maioral de costas assava-as no borralho da caldeira. 

Com esta ousadia antecipava o momento mais desejado: regar o humilde repasto com azeite novo, aromático, cor de ouro, borbulhante, a correr para as tulhas de pedra do senhor feudal.

A Bíblia narra que após a Última Ceia de Jesus, este se afastou para passar a noite e orar. Fê-lo nos arredores de Jerusalém num local conhecido por Jardim das Oliveiras, ou Getsêmani, que significa Lagar de Azeite. Jesus acabaria preso pela guarda do Templo, e tal como a azeitona, seria esmagado, não sob as mós do lagar mas sob as acusações de Caifás, as ordens de Pilatos e os pregos da crucificação.

Nas caves anexas ao palacete do homem mais rico da minha aldeia, repousavam os frutos colhidos pelo labor das gentes, as que trabalhavam de sol a sol nas quintas do todo-poderoso.

Como a minha mãe. 

Vasilhas de muitos tamanhos alinhavam-se em parada: tonéis de vinho, tanques de cereais, tulhas de azeite de elevada qualidade. Bálsamo, perfume em sereno repouso, o azeite decantava sem pressas para ser vendido por elevado preço.

As tulhas de pedra sucediam-se, repletas, acomodando um azeite de excelência, suave ao paladar, frutado no aroma. Néctar dos deuses, perfeito pela decantação demorada, era comprado avidamente por grossistas que demandavam o lagar.

Compravam o melhor.

Mas no fundo da tulha a qualidade degradava-se. A decantação sedimentava um azeite negro, amargo, de sabor metálico, com um discreto travo a sabão.

A este óleo sem qualidade o maioral do lagar teimava em chamar-lhe azeite. Mas não era. Não passava de borra de bagaço espremido na tortura da prensa.

Sem préstimo para ser servido à mesa. 

Adequado para olear os eixos das carroças.

E para ser vendido às pessoas pobres da aldeia.

Sem dinheiro e sem azeite na almotolia, a minha mãe pagava com trabalho na quinta a compra de uns litros daquele lubrificante que fazia azia e nos picava o fundo da garganta.

Na Eneida, Virgílio faz referência ao bom azeite: E com um ramo de oliveira o homem se purifica totalmente. O poeta romano até podia até ter razão, mas a purificação de que falava só viria do bom azeite da Calábria ou da Toscana, nunca da borra que a minha mãe comprava para temperar a sopa.

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