Hoje trago-lhe “De casa em casa”, uma história vivida no tempo da Páscoa, quando as aldeias se ornamentavam para receber o Filho do Homem.
#32 De casa em casa
Repetia-se todos os anos desde há muito tempo. Para mim aquilo era uma animação, metia sinos a badalar, rebuçados e pão-de-ló. A data em que Jesus ressuscitava do rigor mortis era momento de grande celebração. Acontecia três dias após o terem crucificado no madeiro e depositado o cadáver no túmulo. Depois, ao terceiro dia, aparecia resplandecente aos incrédulos seguidores, sem vestes manchadas de sangue, e era vê-los a duvidar, perturbados por tamanho milagre. Não pelo asseio das vestes, mas pelas mãos furadas por pregos.
Aquele prodígio acontecia todos os anos.
Na Páscoa.
Na mesma data em que os judeus celebravam a sua Pessach – Páscoa judaica –, a fuga do Egipto liderada por Moisés para a Terra Prometida. Mas essa é outra história.
Em criança levaram-me à igreja, à pia do baptismo, despejaram-me água na cabeça e disseram-me que era cristão. Mais tarde, por causa das traquinices chamaram-me judeu, mesmo não pondo eu os pés na sinagoga.
Não sei se por ter nascido numa região beirã de forte implantação sefardita, se por causa do apelido, se pela forma do nariz, se pelo jeito irreverente com que olho as coisas sérias, as profanas e as sagradas, ouvi com frequência chamarem-me: és um judeu. Um neófito de Salomão disse-me certa vez que eu tinha qualquer coisa de Sabra.
Sabra é um termo hebraico atribuído à resiliência dos judeus nascidos em Israel. O termo alude a um cacto do deserto a que nós chamamos figo da Índia, duro e espinhoso por fora, macio e doce por dentro.
Tendo eu nascido numa aldeia da Beira-Alta, entre as serras do Açor e do Caramulo, sou mais homem do Alasca do que Sabra do deserto. Contudo, os que me conhecem e tratam bem sabem que por dentro sou suave e doce como o pão-de-ló. Por fora, quando me hostilizam, ergo uma carapaça dura, repleta de espinhos ameaçadores.
Nesta amálgama de cristão e judeu, acima de tudo eu era apenas uma criança curiosa. Um gaiato fascinado pelas celebrações da Páscoa e pelos rituais dos adultos.
Para irmos beijar a cruz, a mim e aos meus irmãos a minha mãe obrigava-nos a tomar banho, vestia-nos uma roupita lavada e penteava-nos o cabelo rebelde. Os homens barbeavam-se, vestiam uma camisa limpa e umas calças com vincos, limpavam os sapatos e aguardavam. As mulheres tiravam do armário a saia e a blusa dos dias de festa, ajeitavam o cabelo e despiam o avental.
Uns e outros passeavam a roupa domingueira num nervosismo pouco habitual. Afinal, iam receber um morto que voltara à vida, e isso não era coisa de somenos. Sabiam por experiência própria, por observarem parentes e animais que se finaram, que quando se morre não há regresso possível. Coisa bem diferente acontecera àquele dissidente judeu chamado Jesus, aquele morto-vivo que lhes ia entrar na sala trazido pelo sacerdote.
Desde manhã cedo que o padre da freguesia percorria os povoados, indo de casa em casa a levar a boa-nova. Acompanhava-o sacristão a transportar a cruz, e um auxiliar a recolher as dádivas, normalmente uma moeda de dez escudos, levemente espetada numa laranja sobre um pires. Nunca compreendi a obsessão por aquele fruto. A época também era boa para maçãs, mas a preferência ia sempre para o citrino.
À entrada da aldeia o auxiliar fazia vibrar a sineta, anunciando aos crentes que deviam deixar a rua e recolher-se em casa. Os homens apagavam o cigarro, as mulheres sacudiam a saia e punham o véu na cabeça. Na sala mais espaçosa, limpa de cotão, decorada com uma jarra de flores, os familiares dispunham-se em redor, junto às paredes, aguardando.
O padre entrava na sala, borrifava com água benta os devotos ajoelhados e dizia: aleluia, aleluia, o Senhor está vivo, regressou dos mortos. O sacristão segurando a cruz ia de boca em boca para uma beijoca no crucificado, enquanto o auxiliar recolhia a moeda e petiscava do pão-de-ló e do queijo fatiado. Às vezes do licor sobre a mesa.
Uma coisa nunca compreendi. Se o Senhor estava vivo e resplandecente, a encontrar-se com os seguidores apesar das marcas dos pregos, porque me davam a beijar um morto pregado na cruz? Nunca abarquei esta contradição.
Se calhar era por eu ser criança.

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