Hoje trago-lhe “A estrada e a Dona Elvira”, uma história de memórias dos dias em que eu e a criançada corríamos pela estrada, desafiando a velha senhora.

#33 A estrada e a Dona Elvira

Do alto da encosta eu via os primeiros quilómetros da estrada. Curvas suaves, terra batida, estendendo-se ronceira desde os Paços do Concelho da vila. Estrada, estradão, cruzava a minha aldeia com a indiferença de quem passa e segue adiante. Bordejava a aldeia seguinte de raspão e prosseguia pelo olival antes de se despenhar pelas encostas dos Aldrogues, onde à noite, diziam os timoratos, apareciam espíritos malévolos. 

A partir do alto a estrada não parava de descer, precipitava-se entre pinheiros que a atapetavam de caruma, guinando aqui e além em meandros tortuosos, ensopada por golfadas de nascentes a escorrer do granito forrado de musgo. 

Por fim, abria-se em alívio num altiplano mirrado ao cimo da aldeia de Sevilha. Aí perdia estatuto, deixava de ser estrada, desembrulhava-se confusa em rincões de quelhas e ruelas a fender o povoado onde o sol tinha vergonha de entrar. 

O último galho de arruamento esgotava-se na ponte de pedra e nos moinhos enganchados no açude do rio Cavalo, o sinuoso afluente do Mondego. 

A Dona Elvira percorria a estrada todos os dias nos dois sentidos. Numa época em que a criançada da aldeia não ocupava o tempo com brinquedos, não escutava rádio, televisão, telemóvel, nem jogos de internet e playstation, a passagem da Dona Elvira na estrada, arfando de cansaço e chiadoiro era um acontecimento. 

Bando de pardais irrequietos, corríamos aos saltos para a estrada, gritando, afrontando-a com palavras provocadoras: Dona Elvira velha sem pernas! Dona Elvira viúva negra! Dona Elvira velha sem dentes! Dona Elvira! Dona Elvira! Dona Elvira! Palavras que tinham o efeito pretendido, irritar o velho condutor, levando-o a buzinar desenfreadamente a corneta roufenha em forma de funil na frente do pára-brisas. Levá-lo a gesticular ameaças para se desenvencilhar dos pirralhos que se penduravam no estribo, que corriam ao seu lado acompanhando-lhe o andamento lento.

A nossa Dona Elvira era um velhinho Ford T de 1925.

Estávamos em 1960. Há trinta e cinco anos que o modelo T deixara de se fabricar, os sobreviventes jaziam em museus ou apodreciam em cima de cepos no fundo dos quintais. 

Mas aquele Ford T – a nossa Dona Elvira – ainda se fazia à estrada como velha senhora de antigos hábitos, percorrendo todos os dias meia dúzia de quilómetros em cada sentido.

Uma relíquia matizada de um negro embaçado e capota de lona mordida pelo tempo. Uma manivela enfiada no radiador para dar vida ao motor e pneus estreitos com raios de carroça. Estribos laterais em banco de jardim e faróis de olhos esbugalhados. Mas o que nós gostávamos mesmo era de lhe ouvir na buzina o ronco de monstro jurássico, implorando que lhe saíssemos da frente.

Mas naquele dia…

Ao subir a estrada, a Dona Elvira chegou exangue à entrada da aldeia. Expelia vapor do radiador como se os pulmões tivessem rebentado. Chiou uns arrancos de tosse asmática e finou-se de motor esgotado, imóvel na velha estrada. 

Ao vê-la ali à mão, sem forças, exausta pela vetusta idade, a criançada redobrou os gritos: Dona Elvira é uma velha e o dono dela é um velhinho! Dona Elvira é uma velha e o dono dela é um velhinho! 

Foi demais para os ouvidos do condutor. 

O homem podia ser velho mas saiu lá de dentro como um gato assanhado. Arrancou a manivela pendente do radiador e correu atrás dos pardalitos provocadores para nos arriar com o ferro. Dispersámos o bando mas ele manteve a perseguição. Qual leão na savana perseguindo a gazela mais jovem, o homem fixou-se em mim por me achar tenrinho e poder abater com o ferrolho do motor.

Corri pelo campo, saltei o muro, dei voltas e a cada olhar para trás lá vinha o velho de tranqueta na mão aos gritos: Eu já te apanho! Eu já te apanho! 

Lesto de pernas voltei à estrada para o levar ao engano. Espreitei da esquina, e então vi-o. Tinha desistido de me fisgar. Sentava-se num bordo da estrada a tossir, exausto, como o velhinho Ford T que conduzia pela estrada, desde a vila até à aldeia do rio Cavalo.

Anos mais tarde, ido da cidade regressei à aldeia pela estrada da Dona Elvira. Na saída da vila a decrépita oficina que eu sempre conheci em criança ainda se mantinha de pé. Ao lado, o eucalipto e o vazadouro de ferro-velho lá permaneciam. O esqueleto do velho Ford T de 1925 também lá estava, uma ruína em pedaços a definhar em ferrugem. Reconheci-o pela matrícula AA e pela buzina em forma de funil que urrava como um animal pré-histórico.

Parei e deixei-me levar pelas lembranças. 

Por um momento voltei a ver a Dona Elvira a percorrer a estrada da minha meninice. Voltei a ver os rostos dos pardalitos que corriam atrás dela aos gritos. Voltei a ver o velho condutor de quem nunca soube o nome, dono daquela relíquia digna de um museu. 

Depois, afastei-me, como se deixasse um velho conhecido no abandono do ferro velho. Olhei uma última vez para aquele pedaço de história automóvel, e como acabou os seus dias, apodrecendo sem dignidade.

Ah, Dona Elvira, Dona Elvira!

Que saudades! Que saudades!

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