Hoje trago-lhe “Falar com Santa Bárbara”, uma história de ventos e tempestades do tempo da minha infância, quando demónios à solta levavam angústia ao povoado.
#34 Falar com Santa Bárbara
As nuvens estavam tão baixas que se lhe chegava com a mão. Estavam tão escuras como a noite ou a alma empedernida dum pecador. Mas era meio-dia, apenas meio-dia. No exterior da casa o vento uivava ameaçador, um Adamastor serrano sem naus para afundar. Vingava-se a derrubar pinheiros e oliveiras com sopros de goela escancarada. Revolvia telhados com fúria expondo a nudez dos caibros como costelas num corpo descarnado.
Não estávamos na Grécia onde Zeus quando se enfurece atira raios e trovões sobre os humanos. Estávamos na minha aldeia, encolhida entre as serras do Açor e do Caramulo.
A gente simples que lá morava, os analfabetos, os pobres de espírito, os alcoólatras, os rezingões, os abastados, os carentes de pão, nada sabiam do panteão dos deuses gregos. Os mais letrados que na Igreja encontravam resposta para todas as desconformidades do firmamento, também ignoravam porque o céu se atirava sobre eles daquela maneira. Interrogavam-se sobre que desconsiderações a aldeia teria provocado nas divindades celestes para os fustigar com aquela fúria demoníaca.
A chuva e a trovoada que ribombavam sobre as nossas cabeças e sacudia a casa térrea que nos abrigava, fazia pensar que no céu andavam a quebrar a loiça e a deitar fora o mobiliário antigo. Pensava-se nisso sem ousar pronunciá-lo, não fosse a suspeita tornar-se realidade, e um armário do princípio do mundo caísse do alto para esbarrondar a casa.
A única que parecia compreender o que estava a acontecer e ter solução para aplacar a intempérie, era a minha mãe.
Num canto guardávamos o loureiro que eu transportei enfeitado de alecrim, rosmaninho e flores de papel, na procissão de Domingo de Ramos por altura da Páscoa. As flores estavam esmaecidas, o loureiro mirrado, mas a minha mãe sabia o que fazer com ele.
Da fogueira no canto da cozinha retirou com a tenaz um punhado de brasas para um prato amolgado e fora de uso. Do loureiro quebrou hastes de louro, rosmaninho e alecrim e, qual ritual pagão, depositou-os solenemente sobre as brasas incandescentes.
Libertos pelo fogo, os óleos e as rezinas odoríferas invadiram a casa e as narinas numa aromática limpeza, num místico apaziguamento. Aos poucos, os voláteis odores serenaram os nossos temores perante a tempestade que grassava lá fora.
Frente àquela primitiva ara votiva, a minha mãe repetia os gestos que os humanos vinham repetindo desde o tempo das cavernas em momentos de aflição. No passado, apelando a uma divindade apaziguadora, naquele dia, através de uma ladainha a implorar protecção a Santa Bárbara: Santa Bárbara, padroeira das trovoadas e tempestades, Santa Bárbara a bendita que no céu está escrito, com papel e água benta, aplacai esta tormenta!
Sem compreender o alcance místico do apelo que a minha mãe ia repetindo, eu e os meus irmãos quedávamo-nos num silêncio respeitoso. Aquilo transcendia o nosso entendimento. A nossa mãe já não era a mulher frágil que conhecíamos. Era a sacerdotisa, a mediadora entre o mundo profano e a casa dos deuses. O prato amolgado onde as brasas consumiam as folhas de louro, os ramos floridos de alecrim e rosmaninho, já não era prato, era um objecto litúrgico, um turíbulo a libertar fumos balsâmicos.
Ao incinerar hastes do loureiro benzido na procissão do Domingo de Ramos, a nossa mãe recuperava o poder matriarcal que em tempos pertenceu às mulheres. O direito de falar directamente com Santa Bárbara, um quase tu cá tu lá entre mulheres, porque antes de ser santa, Bárbara foi mulher na cidade de Nicomédia, a actual İzmit, na Turquia, em finais do século III, e certamente por solidariedade compreendia a angústia da minha mãe.
Vendo as brasas fenecer, o louro, o alecrim e o rosmaninho a transformarem-se em cinza, a minha mãe repetia o mantra sem pausas, apelando à Santa que se despachasse com o gesto milagreiro ou teria que recuperar mais brasas da fogueira.
Ao perceber que o vento deixara de silvar com violência pelas fendas da parede, ousei entreabrir a porta e espreitar. Ao longe continuavam a faiscar assombrações. Mas ali, sobre a aldeia encolhida entre as serras do Açor e do Caramulo, uma estranha acalmia pairava nas redondezas.
No prato amolgado os tições já não libertavam fumo. De olhos fechados a minha mãe entregava a Santa Bárbara uma derradeira prece de agradecimento. Fazia-o num inaudível murmúrio, coisa sua, conversa sigilosa entre mulheres.

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