Hoje trago-lhe a “Chacina de inocentes”, uma história de “violência” bem-intencionada, feita por quem pensava praticar acções que faziam sentido.

#35 Chacina de inocentes

Eram doze e estavam mortos. Uma pessoa que eu bem conhecia tirara-lhes a vida. Liquidara-os um a um sem ponta de emoção, surpreendendo-se porque morriam sem um pio, sem a reacção de quem luta para sobreviver.

Eram doze e estavam mortos. 

Os corpos alinhados na beira da água. Retirados à progenitora sem oposição. Ela olhava a matança sem compreender porque os pequenos seres eram levados pelo desapiedado matador, aquele que lhe dizimava a prole recém-nascida.

Quando a minha mãe chegou a casa e viu a capoeira vazia, silenciosa, surpreendeu-se. Deparou-se com a galinha a esgravatar o chão como se procurasse alguma coisa, a debicar minúsculos insectos, sem ter a ninhada a segui-la pelo quintal.

Eram doze pintos e tinham desaparecido. 

Doze como os filhos de Jacó. Doze como os meses do calendário. Doze como as horas quando o dia vai a meio. Doze os ovos que a minha mãe pôs a chocar sob as asas da galinha. Doze os pintainhos que romperam a casca e viram a luz do dia. 

Deles, nem sinal. Mas havia suspeitos. 

Três, pelo menos: o gavião que pairava no alto de olho nas ninhadas, a raposa que aparecia de tempos a tempos… e o meu irmão. O mais novito. Uma criança incapaz de fazer mal a uma mosca. Apenas quatro anos de juvenil curiosidade.

Era vê-lo na quinta do latifundiário, especado junto ao tanque onde nadavam patos adultos com ninhadas de filhotes. Era vê-lo deitar migalhas de pão para o tanque e sorrir, divertido, com a corrida dos marrecos para chegarem primeiro. Batia palmas quando as crias apanhavam as migalhas que haviam escapado aos adultos, torcendo pelos que pareciam mais frágeis.

O meu irmão gostava de todos os animais, mas venerava os patos e o seu jeito para mergulhar e vir à superfície, ousadia que não estava ao alcance dos outros animais com asas. Por isso se entusiasmava tanto com os pequenos nadadores.

Aproveitando a ausência da minha mãe, o meu irmão pensou numa brincadeira com os seus amigos da natação. No pátio havia uma barrica cheia de água da chuva que corria da caleira do telhado. No chão os doze pintainhos seguiam a mãe-galinha. O meu irmãozito não distinguia patinhos de pintainhos, para ele eram todos iguais. Achou que aqueles que via cirandar pelo pátio estavam fora do seu meio natural, o aquático. 

E quis ajudá-los. Foi em seu auxílio.

Pegou no primeiro e colocou-o na água da barrica. Observou-o a boiar com dificuldade. Atirou-lhe umas migalhas de pão para ele comer, mas o pintainho tombou de lado, desinteressado, a cabeça metida na água como se quisesse mergulhar. 

Vendo o que lhe pareceu uma tentativa de mergulho sem o conseguir, o meu irmão ajudou-o a ir ao fundo, empurrou-o para debaixo de água e esperou que viesse à tona. Ao fim de algum tempo o pintainho emergiu e tombou de lado sem se mexer.

Ele pensou que por ser pequenito ainda não aprendera a nadar. Colocou o corpo sem vida no bordo da barrica e foi buscar um irmão daquele. Repetiu a experiência e quando veio ao de cima, sem se mover, arrumou-o ao lado do primeiro.

Doze vezes o meu irmão colocou pintainhos na água. Doze vezes os pintos emergiram afogados. Os doze ele alinhou numa parada de defuntos no bordo da barrica, sem compreender a diferença entre patos e pintainhos. 

Quando a minha mãe se deparou com a chacina de inocentes em redor da barrica, percebeu que os pintos não chegariam a galinhas nem galos para vender no mercado. O seu magro ganha-pão esvaíra-se nas águas da barrica. Qual detective à procura dum culpado, interrogou o meu irmão: Filho foste tu que meteste os bichinhos na água? Candidamente ele respondeu: Sim mãe, mas eles não querem tomar banho! 

Ela afagou-lhe a cabeça sem uma repreensão. 

Matutava onde arranjar ovos galados para a galinha chocar.

Subscreva a newsletter

Preencha o formulário abaixo e receba todas as semanas histórias e novidades diretamente na sua caixa de e-mail.

*os campos assinalados são de preenchimento obrigatório