Hoje trago-lhe uma história de “Gatos e rachaduras” vivida pela minha mãe em épocas de privação, no tempo em que se reaproveitava a loiça quebrada para lhe dar novo uso.
#36 Gatos e rachaduras
Amontoavam-se num recanto do armário da cantareira como escombros de um terramoto, destroços de uma batalha, pedaços de inutilidade. Envelheceram com os avós e desgastaram-se pelo uso dos anos numa osteoporose quebradiça, fragmentando-se em pedaços com a mais branda das pancadas.
À medida que iam sucumbindo na cozinha, a minha mãe juntava os bocados da loiça numa quelha do armário, aguardando o dia do concerto: pedaços de um alguidar, uma travessa gretada, uma caneca amputada da pega, um prato dividido em dois, um tacho de alumínio e uma cafeteira de esmalte incapazes de reter a água.
Fragmentos de pobreza num tempo de doentia escassez e indisfarçada miséria, quando na aldeia e no país estávamos “orgulhosamente sós”.
Quando ouço dizer que antigamente é que era bom, só me ocorre que esses saudosistas de outrora ou sofrem do Síndrome de Estocolmo ou nunca lhes faltou pão na mesa e sapatos nos pés. Nem nunca tiveram loiça em pedaços amontoada num canto para concertar, aguardando a chegada do amolador para lhe enxertar uns “gatos” nas rachaduras, uns rebites nos furos e uma prótese na pega da caneca.
Então vinha o dia em que ele subia a estrada da aldeia a empurrar uma roda de carroça com os apetrechos da sua arte. Junto das primeiras casas soprava num instrumento semelhante às flautas de pan dos tocadores andinos, fazendo soar dois tons que iam do grave ao agudo e do agudo ao grave.
Intercalava o toque com o pregão de amolador:
Venham senhoras, venham, deito gatos em bacias e alguidares, amolo facas e tisoiras na pedra de amolar, conserto chapéus-de-chuva… vida dura de ganhar!
Na minha casa minguava tudo o que era útil e dava conforto. A minha mãe reaproveitava frascos, pratos, cordões de embrulhos, latas vazias, garrafas, copos desirmanados, calças que foram usadas por alguém a que ela dava vida com remendos nos joelhos, para meu uso e dos meus irmãos.
Aguardava pelo regresso do funileiro e amola-tesouras para prolongar a vida de peças de cozinha, remendadas com “gatos” metálicos em loiça que hoje não hesitaríamos em deitar no lixo.
Oriundo da Galiza, o amolador aparecia na aldeia de tempos a tempos. A minha mãe guardava a loiça quebrada e, se lhe sobravam umas moedas para o pagamento, entregava as peças à arte do galego para reconstrução.
O processo era simples. O homem juntava os pedaços de loiça, abria furos simétricos ao longo da quebratura, introduzia as garras de arame em forma de agrafo (o “gato”), e apertava bem, selando a fractura com uma espécie de cimento branco, impedindo que os líquidos escapassem pela cicatriz.
Olhando a peça de loiça reconstruida, aquilo mais parecia a sutura de uma cirurgia hospitalar. Não era bonita de se ver, mas ficava perfeita para voltar a ter uso.
Nos orifícios no tacho e na cafeteira, o amolador introduzia um rebite de alumínio, martelando-o até vedar a perfuração.
Da totalidade dos escombros no canto do armário, uma parte ficava por reconstruir, aguardava por melhores dias, quando a minha mãe tivesse um dinheiro extra para pagar a reparação.
A figura do amolador que deitava “gatos” na loiça estava tão presente no Portugal de antigamente, que Fernando Pessoa não resistiu em dedicar-lhe um poema:
O rapaz que deita gatos
Ó rapaz que deita gatos,
Deitas gatos só em pratos,
Só em tachos e tigelas,
Ou deitas gatos também
Nas almas e no que há nelas
Que as quebra em mal e em bem?
Ah, se por qualquer magia,
As tuas artes subissem
Àquela melhor mestria
De pôr gatos que se vissem
Nesta alma que se quebrou
No que sonho e no que sou!
Então… Qual então! Que tratos
Dei a um poema que surgiu!
Só consertas, só pões gatos
No inteiro que se partiu.
O que partido nasceu
Nem tu consertas nem eu.
Fernando Pessoa (1933)

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