Hoje trago-lhe um “Velório e toque de sinos”, uma história vivida por mim quando era criança, quando ousava fazer coisas nem sempre da forma mais acertada.

#37 Velório e toque de sinos

Nos anos cinquenta, na minha aldeia, morria-se de velho e de tuberculose. Aquele vizinho consumido pela doença, finara-se sem alcançar a velhice. Ao cair da noite, amigos e conhecidos dirigiram-se para o velório de despedida. Comadres carpideiras envoltas em xailes pretos, vieram até ao falecido num choro breve e muita coscuvilhice.

O homem morrera tísico e a miasma do cadáver pairava em redor do caixão. Tinham-lhe atulhado o nariz e a boca com algodão canforado, mas, por precaução, quem chegava mantinha-se afastado do ataúde. As carpideiras permaneciam sentadas em bancos junto às paredes da sala. A tuberculose e a morte daquela pessoa que nos consertava os sapatos, assustava, tivéssemos ou não calçado nos pés.

A casa era de piso térreo e a sala do defunto abria-se para a rua num janelão escancarado. As pessoas preferiam velar do exterior, mantendo-se a uma distância segura. Lançavam olhares cautelosos para dentro da sala, como se a morte os estivesse a observar do lado de lá.

Na rua os homens acenderam uma fogueira, a noite estava fria e um tépido aconchego mantinha-os juntos e conversadores. Relembravam episódios que em vida tiveram com o falecido. De um garrafão enchiam copos de vinho que bebiam em pequenos goles e, para passar o tempo, enrolavam cigarros de um tabaco acre e fumarento.

As mulheres, mais contidas, chegavam aos pares e davam boas-noites quase num murmúrio. Atiravam um rápido olhar ao esquife e escapavam-se para a segurança da rua, comentando que o cadáver mirrado não tinha semelhanças com o sapateiro folgazão que conheceram em vida.

A minha mãe também foi ao velório, cumprindo o dever de boa vizinhança. Eu quis acompanhá-la, mas ela proibiu-me de lhe seguir os passos. Insisti e ela mostrou-me a colher de pau como argumento decisivo para conter a minha curiosidade. Aquilo não é sítio para crianças, disse-me, mais ainda quando a maldita da doença anda à solta a roer os pulmões.

O Alfredo era um rapazola mais velho do que eu. Ajudava o sacristão a carregar as alfaias da sacristia e a tocar o sino da igreja. Veio desafiar-me para o dia seguinte. Que tal subir com ele à torre da igreja para tocar o sino em rito de funeral, conforme lhe pedira o sacristão? Concordei de imediato. 

E hoje, que tal irmos espreitar o velório do sapateiro? Lembrei-me da ameaça da colher de pau, mas a minha mãe já tinha saído com uma vizinha para a vigília nocturna. 

O Alfredo garantiu-me que frente à casa do falecido havia um celeiro de onde podíamos espreitar sem sermos descobertos. Eu já tinha visto funerais a passar na estrada a caminho do cemitério, nunca vira a despedida de um defunto, nem a animação dos adultos por ficaram por cá a vê-lo partir. 

Pela sorrelfa da noite lá fui eu e o Alfredo, dois putos atrevidos a enfrentar o desconhecido. Fomos espreitar o velório e os ritos de passagem da vida para a morte. Fomos escutar os comentários solidários e receosos de quem estava a beber vinho e a fumar. Porque essa coisa de contemplar um vizinho com quem já se bebeu um copo, encaixotado num casacão de madeira, dá que pensar sobre como são transitórias as nossas andanças neste mundo, mesmo que o vinho nos faça filosofar sobre a imortalidade.

No dia seguinte segui o Alfredo pela escada em caracol da torre sineira da igreja. O funeral já vinha na estrada, lá do alto víamo-lo a aproximar-se. Quatro homens transportavam o caixão, seguidos por acompanhantes silenciosos. Dirigiam-se à igreja para uma oração fúnebre e, dali, para o cemitério no extremo da vila.

A escada de madeira em caracol pelo interior da torre estava carcomida pelo tempo, coberta de teias de aranha e excrementos da passarada que nidificava no interior. Os degraus estavam escorregadios. Quase a chegar ao cimo o Alfredo resvalou na trampa e veio por ali abaixo. Passou por mim aos trambolhões e quedou-se lá no fundo a gemer.

O cortejo fúnebre aproximava-se da igreja e era preciso sinalizar no sino a chegada do funeral. Sem se poder mexer o Alfredo gemeu cá para cima: O morto é um homem, dá nove badaladas, cinco no sino grande e quatro no pequeno. 

Eu já sabia contar, mas na excitação de estar sozinho ante tamanha responsabilidade, dei sete badaladas. Sete, que correspondiam à entrada na igreja de uma mulher falecida. Não de um homem.

Lá mais adiante, quando o féretro já saíra da igreja e dava entrada no cemitério, o Alfredo repetiu o apelo: Quando o estiverem a botar à terra, “pica” mais nove. 

Dos mais velhos eu havia escutado aforismos populares sobre a descida à terra: “são sete badaladas e um balde de cal”. Tinha na cabeça essa frase e foi o que fiz. Badalei quatro no sino grande e três no pequeno. E em vez de picar, como o Alfredo pedira, repeniquei os sinos, que é o toque de descida à terra de um anjinho recém-nascido.

Os meus erros com a sinalética fúnebre de toque dos sinos, e a confusão que introduzi no funeral, tiveram consequências. O sacristão demitiu o Alfredo de ajudante, e a mim proibiu-me de nunca mais pôr os pés na torre sineira, nem sequer chegar à porta. Segundo ele quem foi a enterrar naquele dia não foi o sapateiro tuberculoso, mas uma mulher e o seu filho recém-nascido.

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