Hoje trago-lhe “O arco de Nossa Senhora”, uma história de trabalho e festividade, vivida por mim na escola primária nos últimos meses da quarta-classe.

#38 O arco de Nossa Senhora

Nossa Senhora desceu do altar e foi dar uma volta pela freguesia. O clero foi com ela. Os dias passados na igreja, de pé, eram uma canseira para um corpo já entradote em anos. Vinte séculos a observar devotos ajoelhados aos pés a pedir ninharias que eles mesmos podiam resolver sem intervenção divina, requeria uma paciência de santa.

Na coscuvilhice dos crentes que lhe vinham acender velas, ela escutara que na rua andava gente que só se lembrava de Santa Bárbara quando trovejava, para quem um verdadeiro milagre, daqueles que converte um ateu empedernido, era acertar na lotaria e nos números da sorte grande. 

Isso é que seria um acontecimento milagroso.

Então, Nossa Senhora encheu-se de curiosidade e foi conhecer as dúvidas dos desgarrados. Deu corda ao andor e fez-se ao caminho para se dar a conhecer e estar próximo dos mais arredios da fé, aqueles que só entravam no templo para casamentos e baptizados. 

Com a ajuda do padre da paróquia percorreu as freguesias do concelho, sempre seguida por acólitos de velas na mão a cantarolar Avé Maria. E foi-se, determinada em cima do andor a calcorrear caminhos de aldeias, dos mais iluminados aos mais sombrios, dos mais esconsos aos mais planos. 

Há semanas que andava naquilo.

Um desses caminhos, por sinal bem escalavrado e a ressumar humidade, passava na proximidade da escola primária onde eu aprendia a ler e escrever. 

Quando a professora, uma devota confessa da Virgem, informou os alunos que Nossa Senhora vinha visitar a escola, a sala de aula ficou em silêncio a matutar na informação. 

Nós, os da quarta-classe, que já sabíamos umas coisitas da língua pátria, achámos que a professora estava a testar o nosso conhecimento sobre as figuras de estilo. Não sabíamos muito, mas lembrávamo-nos das onomatopeias por causa do burro que zurrava num texto dos contos de Andersen. Não mais do que isso. Agora que Nossa Senhora calçara os sapatinhos para visitar a nossa escola, a notícia parecia-nos um exagero. 

O Tinoco, sempre de braço no ar, o mais despachado a fazer perguntas, por ignorância ou matreirice, inquiriu se ela, devido à idade, conseguia subir os degraus da escada até à nossa sala de aula no primeiro andar.

Condescendente com a malícia do Tinoco, a professora esclareceu que a mãe de Deus não transporia a porta de entrada, somente passaria no caminho frente à escola, por sinal, o escalavrado e a ressumar humidade. 

E acrescentou: “Como dádiva da escola, os nossos alunos vão tapar os buracos do caminho, nivelar o chão e construir um arco para homenagear a divina Senhora”.

Dar umas cavadelas no chão com a enxada e construir um arco não parecia obra do outro mundo, mas quando a professora esboçou no quadro as dimensões do arco, aquilo assemelhou-se a erguer obeliscos na terra do Faraó. Era trabalho para gente crescida, e nós éramos garotos para tão grande empreitada. 

Senti que o esforço ia cair em cima dos alunos oriundos das aldeias, os descalços do costume, habituados à dureza do trabalho nos campos. Putos como eu, que recebi o meu primeiro salário aos nove anos a recolher resina nos pinhais.

Suspeitava – o que veio a confirmar-se –, que os meus colegas de sapatos limpos e roupita sem remendos, provenientes da burguesia da vila, não eram suficientemente rijos para alombar com pinheiros nem para trepar às alturas no arco de Nossa Senhora. Nem mesmo com a colaboração da professora podíamos contar para o trabalho pesado. De arcos ela só entendia a teoria, não a execução.

Liderei a queixa dos pés rapados sobre quem recaíra o trabalho duro. Então os copinhos de leite não vergavam a mola no pinhal, só nós? A professora, qual madre-superiora a apaziguar o conflito e a distribuir tarefas, disse que todos os alunos colaborariam na construção do arco. Os putos servos da gleba iam para o pinhal, os filhos da burguesia, mais tenrinhos, ficariam na escola a produzir flores de papel para enfeitar o arco.

E lá fomos até ao pinhal, os pés-rapados da escola, um ranchinho bem pequeno mas determinado, armados de foices para cortar o mato, e de machado e serrote para cortar dois pinheiros altos, gémeos um do outro. 

Derrubámo-los numa canseira. Limpámos a ramaria e a casca, e carregámo-los às costas em sucessivas trocas de ombro e paragens para descansar. A distância até ao caminho frente à escola não era grande, mas naquele dia parecia não ter fim.

Escolhido o local, em cada berma abrimos uma cova com a fundura de meio metro. Com o auxílio de cordas e gritos de cuidado que nos cai em cima, fizemos deslizar cada tronco para dentro da toca, fixando-o com pedras e terra. 

Perfeito. Eram dois obeliscos a homenagearem Nossa Senhora, no cortejo que passaria entre os dois altos postes. Transpirávamos com a dureza da faina. Quedámo-nos expectantes, convencidos que a obra para agradar à mãe de Deus estava completa e era suficiente.

Não era.

A professora queria uma trave lá no alto a ligar os dois postes para suspender estrelas de Belém e cordões com flores. Lembrámos a mestre-escola que aquilo não era um presépio para ter estrelas, como estava, estava bem, era suficiente. Ela engrossou a voz e teimou que a obra estava incompleta. Lembrámo-nos dos dias em que dela apanhámos reguadas nas mãos.

E voltámos ao pinhal.

Cortámos um pinheiro mais delgado e limpámo-lo de galhos e caruma. Com escadas e vertigens pregamo-lo bem no alto, lá bem em cima, para que a cabeça de Nossa Senhora sobre o andor não batesse na trave e perdesse a coroa de rainha do céu.

Nós os putos, os pés rapados da quarta-classe, contemplámos por fim a obra com orgulho. Gostámos do que vimos. O arco era enorme, impressionava, mas aquilo mais parecia uma baliza de râguebi do que um arco celestial. 

Talvez Nossa Senhora não se importasse. Talvez gostasse desse desporto raçudo quando cruzasse a linha de golo!

Subscreva a newsletter

Preencha o formulário abaixo e receba todas as semanas histórias e novidades diretamente na sua caixa de e-mail.

*os campos assinalados são de preenchimento obrigatório