Hoje trago-lhe “De tamancas na mão”, uma história que a minha avó contava com um sorriso maroto, uma história passada anos lá para trás, bem antes de eu ter nascido.
#39 De tamancas na mão
A estrada que cruzava o rio Mondego vinha da minha aldeia até à estação do caminho-de-ferro.
Em Santa Comba Dão.
Dez quilómetros que a gente dos povoados percorria a pé para ir à feira. Naquele dia a minha avó partiu de madrugada com a comadre Etelvina, iam comprar batatas de semente para plantar na horta.
De tamancas nos pés caminharam os primeiros quilómetros com desembaraço por atalhos nos pinhais, até à margem do rio. Desceram pela encosta do Freixieiro e, na ponte romana, reentraram na estrada entre giestas e neblinas do amanhecer.
O dia estava a despontar por cima dos campos salpicados de orvalho. O silêncio no vale só era quebrado pelos primeiros chilreios e o trac-trac das tairocas das duas mulheres. Subiram com a estrada até à aldeia de São João de Areias num passo ritmado, descontraído, conversador.
A aldeia despertava.
Nas lareiras acendiam-se fogos para o café da manhã. Fiapos de fumo escapavam-se dos telhados das casas arrumadas entre quintais e campos de milho.
Algures um galo anunciou o dia num cantarolar hesitante. Despertava os retardatários que teimavam agarrar-se à cama. A minha avó e a comadre Etelvina não precisaram de galo para se levantarem cedo.
Passaram pela aldeia sem ver ninguém. Uma tosse renitente fez-se notada no interior duma casa térrea. Um gato preto atravessou a estrada. A comadre Etelvina benzeu-se, gatos pretos traziam azar. A minha avó zombou que azar era terem de palmilhar tantos quilómetros a pé até à feira.
À distância escutaram o silvo de um comboio e o arfar da locomotiva na linha da Beira Alta. Já não estavam longe. O sol despontava, mas a neblina persistia teimosa a encobrir os campos.
A estrada aproxima-se da aldeia do Vimieiro, uma fieira de casas térreas a lamber a estrada. Uma aldeia despovoada de gatos, galos e gente, só o trac-trac das tamancas a ressoar no empedrado.
Dois vultos de espingarda ao ombro saíram da neblina. Postaram-se no meio da estrada travando o passo às duas mulheres. Dois guardas da GNR. Envergavam capote verde dos ombros às polainas de couro. Na cabeça a proteger as orelhas do orvalho uma espécie de capacete colonial.
Perguntaram à minha avó o que faziam ali àquela hora. A minha avó era conhecida por não se intimidar com ninguém. Humilhados e ofendidos recorriam a ela para interceder por eles junto dos poderosos.
Ela respondeu ao guarda que caminhavam na estrada, por isso estavam ali, iam à feira de Santa Comba, e depois! O pasma quis saber o que iam fazer na feira. Irónica, a minha avó perguntou-lhe se com aquela idade ele ainda não sabia o que as pessoas faziam numa feira. O guarda admoestou a minha avó para não lhe faltar ao respeito; apontou para os pés das duas mulheres e mandou-as descalçar as tamancas.
Porquê? Empertigou-se a minha avó. Porque, justificou-se o guarda, Sua Excelência o Senhor Presidente do Conselho está em casa a descansar e não pode ser incomodado com o barulho das tairocas no empedrado da estrada.
A minha avó contou-me, que sem o guarda perceber, entredentes disse para a comadre Etelvina que o dia estava a nascer e só os preguiçosos estavam na cama. Mas quando o assunto tinha a ver com Salazar, era melhor não discutir com quem lhe guardava as costas.
De tamancas na mão caminharam descalças para dentro da neblina. Sem terem os guardas à vista, ao passarem frente à casa do todo-poderoso, num gesto de rebeldia, meteram as tamancas nos pés para caminhar.
Detrás de um muro surgiram dois novos vultos de capote verde, bradando para as mulheres descalçarem as tairocas.
A minha avó virou-se para a Etelvina e desabafou:
“Vamos comadre, isto aqui está cheio deles!”

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