Hoje trago-lhe um “Acerto de contas”, uma história passada na minha infância, no dia em que foi necessário fazer certos acertos para evitar males maiores.

#40 Acerto de contas

O dia era de sol. As mulheres animavam-se a lavar roupa na água da represa com dimensão e fundura considerável. Enchia-se com a nascente e era uma reserva para os dias de rega, servindo de lavadouro para as mulheres da aldeia. 

No muro de pedra do bordo inferior, ensaboavam calças e camisas, lençóis e toalhas. No bordo superior, uns três metros mais acima, videiras e árvores de fruto cresciam na terra fértil, curvando-se para a represa como se estivessem sedentas e quisessem beber. 

Arvoredo e água abundante atraíam insectos, trazendo para o banquete estorninhos e melros, maçaricos e pintarroxos. Um paraíso para os pássaros, esvoaçando cá e lá, saltitando de ramo em ramo em chilreios de contentamento.

Eu tinha oito anos e naquele dia acompanhei a minha mãe até à represa na quinta. Enquanto ela lavava a roupa, eu aguardava sentado no bordo superior sob a sombra fresca do arvoredo.

Tudo parecia perfeito, não fosse o Artur, o filho do caseiro, ter aparecido sorrateiramente nas minhas costas. 

O Artur tinha o dobro da minha idade, abandonara a escola por falta de motivação e implicava comigo, sabe-se lá porquê. Num dia era por causa dos remendos nos calções, noutro por causa dos socos de madeira que eu trazia nos pés. Ou então, atirava-me torrões de terra, ressequidos, e se comia melancia, cuspia os caroços para cima de mim. 

O Artur era um moço velhaco, comprazia-se a humilhar os mais novos, seguro da sua força e tamanho.

Naquele dia aproximou-se para me atirar com uma cobra de água. Eu não receava as cobras, habituara-me a vê-las nos caminhos e nos muros a aquecerem-se ao sol. Esta, que o Artur trazia na mão, era bem pequena, bem mais assustada do que eu. 

Pus-me de pé num salto, e não foi por recear a cobra.

Foi o que ele disse que me revoltou. 

O Artur era um desbocado, um tosco que repisava alarvidades que ouvia dos mais velhos. Atirou-me o réptil para cima misturando insultos sobre a minha mãe, sobre “aquela cobra de água que está ali a lavar a tua roupa suja”, disse, com um sorriso de escárnio.

Na vida, experienciamos momentos que nos marcam por serem inusitados, perdurando na memória pelos anos fora. 

Este foi um deles.

Não sei onde encontrei força e agilidade para agarrar um tipo com o dobro do meu tamanho, e atirá-lo do alto da ribanceira para dentro da água da represa.

O Artur mergulhou como um meteoro caído do céu, assustando as mulheres no lavadouro, provocando uma onda que transbordou para a encosta.

O desgraçado não sabia nadar. 

Veio à superfície de olhos arregalados, boca escancarada, a cabeça coberta de limos. E afundou-se de novo a esbracejar, alvoroçando as rãs que coaxavam atrás das ervas e dos juncos.

Uma das mulheres saltou para dentro de água e pescou o náufrago pelo braço, puxando-o para o lavadouro. 

As mulheres olharam cá para cima e viram-me de pé, um inocente, incapaz de fazer mal a uma mosca.

A minha mãe poisou as calças que estava a ensaboar. 

Olhou-me inquisitiva e perguntou:   

Filho, que aconteceu? 

Caiu, mãe… ele caiu!

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