Hoje a história tem o nome de “Desfolhada e milho-rei”, um evento passado na eira, quando rapazes e raparigas cruzavam olhares e ensaiavam os primeiros beijos.
#41 Desfolhada e milho-rei
Lá para o final de Setembro vi chegar o Outono. Chegou vestido com tons de amarelo e castanho. A temperatura era amena. Na Beira-Alta ainda se faziam vindimas e pisavam uvas, mas na aldeia já se olhavam os milheirais a precisar de corte.
Aquele foi o ano em que regressei da escola, terminara a 4ª classe e as aulas com a Dona Maria. Comecei a ajudar os meus pais nas fainas do campo: apanhava uvas na vindima, tirava água do poço com a picota para regar a horta, recolhia lenha no pinhal para a minha mãe cozinhar, levava o gado a pastorear e, com o cântaro de barro, carregava água da fonte para a cantareira.
Se havia desfolhada na aldeia, lá estava eu.
E se eu aparecia na desfolhada, a Sãozinha, um pouco mais velha e atrevida, também aparecia.
Vizinhos, parentes, criançada, revezavam-se nas desfolhadas numa entreajuda que tinha tanto de festa como de trabalho duro.
O dono cortava o milheiral e amontoava os caules junto da eira. Combinava o momento para iniciar a desfolhada e, quem podia, aparecia para dar uma ajuda ao final do dia, por vezes, pela noite dentro.
As pessoas sentavam-se em redor do amontoado de caules, puxavam uns quantos para si, desfolhavam a espiga de milho e atiravam-na para a cesta de verga. As espigas eram depois transportadas para a laje da eira para serem malhadas e soltarem os grãos do carolo.
As mulheres eram mais numerosas que os homens. Entre os mais novos havia namoros assumidos, e outros, que não o sendo, aproveitavam o momento para se insinuarem.
Os rapazes entusiasmavam-se com a desfolhada na esperança de se depararem com a espiga vermelha: o milho-rei. Quem a encontrava gritava milho-rei, e levantava o braço a mostrar a espiga, pois era-lhe permitido ir beijar a rapariga ou o rapaz que traziam debaixo de olho.
Naquele dia eu e os outros garotos sentámo-nos no meio do mulherio. A Sãozinha apareceu e os moços ficaram de olho nela. Sentou-se no lado oposto, de frente para mim, com um sorriso enigmático. Mexia no folhelho como se estivesse distraída.
Aproximava-se a hora da merenda. Os donos da casa preparavam a mesa para o repasto: pão, azeitonas, sardinha frita, bacalhau albardado e vinho tinto. Muito.
No momento em que o Zé Esteves anunciou que a merenda estava na mesa, a Sãozinha levantou o braço e gritou: milho-rei, milho-rei. A espiga vermelha resplandecia na mão erguida como um farol de navegação.
Homens e mulheres sorriram e levantaram-se para merendar. A Sãozinha deu a volta ao montão de folhelho descascado e veio até mim. Abaixou-se de espiga vermelha na mão e disse-me ao ouvido que a trouxe de casa, bem escondida. Pôs ambas as mãos na minha cara, encostou os lábios aos meus e beijou-me. Demoradamente.
Esta é a tua merenda, disse com um sorriso descarado.
Ocultou a espiga junto aos meus pés e recomendou que mais tarde seria a minha vez de mostrar o milho-rei para eu a ir beijar.
Fiquei sem jeito pelo inesperado do beijo.
E pelo atrevimento dela.
Vendo-me embasbacado a olhar o milho, o Zé Esteves chamou-me: ó miúdo anda comer, ou perdeste o apetite com o beijo da rapariga.
Já merendei, lembro-me de ter dito. Se não disse, pensei.
Os lábios da Sãozinha eram uma guloseima para degustar sem pressas. A espiga oculta para o segundo beijo fez-me pensar que esta não era uma desfolhada de milho.
Era uma prova de lambarices.

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