Hoje trago-lhe uma história com o título “Descortiçar antes do tempo”, um evento passado no vale do rio Mondego, quando o meu pai desmatava as brenhas e se enredou na idade da cortiça.
#42 Descortiçar antes do tempo
A uma família de sobreiros dá-se o nome de montado de sobro, mas aqueles poucos sobreiros espalhados pela encosta, convivendo entre penedos com pinheiros mansos, zimbros e medronheiros, não era um montado, eram sobros desavindos, sobrevivendo ao vento e às neblinas do vale do Mondego.
O dono do pedaço recorreu ao meu pai para fazer o desmatamento e limpar o excesso de coberto vegetal. Pagava uma miséria pela trabalheira que aquilo dava. O meu pai viu a meia dúzia de sobreiros perdidos entre as fragas e perguntou ao homem se podia tirar a cortiça, sempre arredondava o escasso pagamento. O homem aceitou. Garantiu que podia fazê-lo, a cortiça nas árvores tinha nove anos, idade legal para ser colhida.
Não tinha nove.
Tinha oito.
Naquele dia eu e a minha mãe tínhamos ido com o meu pai para o ajudar no desmatamento enquanto ele ia descortiçando os escassos sobreiros. Usava um machado apropriado de lâmina curva e cabo de madeira com a extremidade em cunha, com a qual levantava a cortiça sem ferir o tronco. Sabia o que estava a fazer, dominava a técnica de extrair a casca sem golpear a árvore.
Não foi por falta de técnica que os guardas da GNR aparecerem para o deter e levar sob prisão.
Alguém o havia denunciado.
Sem o saber, ele estava a colher a cortiça do sobreiro antes dos nove anos regulamentados na lei. Apesar da garantia dada pelo dono do montado, faltava um ano para o corte poder ser realizado de acordo com as normas.
Eu estava afastado, junto aos penedos, estranhei ver chegar um táxi rolando pelo caminho do pinhal, e dele saírem dois guardas. Que raio viera fazer um táxi às fragas do Mondego? Carros de bois costumavam aparecer por ali, mas um táxi da vila!
Habituara-me a ver passar os guardas de Mauser às costas a pedalar na estrada, montados em bicicletas. Ignorava que se deslocavam de táxi para fazer detenções.
Quando vi o meu pai ser levado pela bófia, corri para junto da minha mãe, ela disse-me que o meu pai fizera asneira, não se certificara da real idade da cortiça.
Eu e ela passámos o resto do dia a cortar mato e estevas resinosas, seguindo a recomendação do meu pai, antes dele ser levado de táxi pela autoridade. Ao entardecer regressámos a casa com molhos de gravetos e estevas, úteis para aquecer o forno de cozer o pão.
A minha mãe cozinhou uma sopa, batatas e sardinhas fritas para o nosso jantar. Reservou uma parte, acondicionou-a numa alcofa com um naco de pão e um quartilho de vinho, e mandou-me à vila, à prisão, levar o jantar ao meu pai que devia estar esganado de fome.
A prisão ficava num edifício de granito que acompanhava a inclinação da rua. Era uma edificação austera. No piso superior instalara-se o grémio dos lavradores. Num recanto do piso inferior, arrumava-se o presídio da vila com uma cela ampla. Uma janela com grades dava para a rua e ficava ao nível do passeio.
A noite tinha caído.
Nunca ali tinha estado, o sítio intimidava um garoto como eu, nada familiarizado com presos e presídios. Aproximei-me da janela. Baixei-me. Através das grades chamei pelo meu pai.
Uma lâmpada suspensa do tecto acendeu-se no interior. Uma cara vincada por rugas e barba de dias aproximou-se das grades. Olhei lá para dentro, não havia mais detidos, só ele na solidão da cela. Surpreendeu-se por me ver ali, mas ficou contente por lhe ter levado alguma coisa para comer. Naquela cadeia os presos não recebiam comida, eram os familiares que providenciavam as refeições.
Comeu a sopa, as batatas e as sardinhas fritas, deu uma golada no vinho e guardou o pão para quando tivesse fome. Disse-lhe que voltaria no dia seguinte à hora do jantar. Abanou a cabeça em sinal de concordância. Sem dizer palavra fez um aceno de despedida e retirou-se para o interior. Vi-o deitar-se num catre e apagar a luz. A escuridão encheu o interior da cela.
Volto amanhã, repeti antes de me afastar.
Não obtive resposta.

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