Hoje trago-lhe a história com o título “Lá vamos cantando e rindo”, um evento passado num dia de festa, quando sobre mim recaiu a escolha da professora numa função que não pude recusar.

#43 Lá vamos cantando e rindo

Era o dia da raça. 10 de Junho. Dia para glorificar a Pátria e os seus heróis. Dia em que na escola se cantava o hino de pé, de frente para o nazareno crucificado, ladeado pelas fotografias de Craveiro Lopes e Salazar. Dia em que a senhora que representava a Mocidade Portuguesa aparecia com os cinco alunos a quem a família comprara o uniforme da Mocidade, (chamávamos-lhes “Piolhos Verdes” por causa da cor da camisa).

Os outros alunos como eu, que não pertenciam à Mocidade Portuguesa, não tínhamos uniforme, só roupa remendada, mas no dia da raça, Dona Maria, a decana das professoras, obrigou os alunos a virem vestidos com bata branca, se calhar para esconder os remendos.

A bata estava guardada em casa, era usada só nos dias de festa. A minha mãe lavou-a e engomou-a no ferro aquecido com as brasas da fogueira. 

Na escola envergámos as batas, e as professoras organizaram três filas de alunos para o desfile na rua principal da vila. Uma alvura de miúdos irrequietos a marcharem com alguma ordem.

Entre tantos candidatos, vá-se lá saber porquê, a professora escolheu-me a mim para porta-bandeira, empunhando a vara de bambu com o estandarte das Quinas. Coloquei o bordão ao ombro, mas Dona Maria, com o seu ar severo, exigiu que levasse a bandeira bem erguida no alto, o que me obrigava a alguma força. 

Percebi porque fui escolhido. 

Habituado a carregar sacos de carvão que o meu pai retirava de fornos no meio das fragas, a professora deve ter visto em mim arcaboiço para tão exigente função.

E lá fomos todos cantando rindo como nas estrofes da Mocidade. O desfile dos alunos começou junto da igreja, percorreu o centro da vila até um outeiro, onde se faria a concentração das escolas do concelho. 

Na frente, eu esforçava-me por manter a bandeira na vertical. As gentes da vila paravam na berma para ver passar aquela juventude de bata branca. Na mercearia as pessoas saíram e puseram-se à porta a rir, apontando para o porta-bandeira. Na oficina de automóveis, mecânicos besuntados de óleo disseram piadas para o moço que carregava o estandarte. 

Comecei a perceber que a galhofa dos adultos tinha a ver comigo. Seria por causa da bandeira? Seria por causa da bata um pouco acanhada para o meu tamanho? Quando passámos frente à farmácia, empregados e clientes vieram para a entrada a rir-se, a apontar para mim. O farmacêutico descalçou um sapato e acenou-me com ele.

Então percebi a crueldade da chacota. Na frente da coluna eu caminhava empertigado de bandeira ao alto. Caminhava na perfeição. 

Mas caminhava descalço. A coxear ligeiramente por causa de um espinho no calcanhar. 

Percebi no sorriso e na mímica do farmacêutico de sapato no ar, que o homem troçava de mim e dos meus pés nus, mancando no chão duro da calçada. 

Naquele momento senti que eu, digno porta-bandeira, não representava toda a raça que se comemorava naquele dia. Senti que representava os que caminhavam descalços, não os que tinham sapatos. No desfile havia outros miúdos de pés nus, mas marchavam encobertos entre os alunos da escola. 

Eu não. Eu caminhava exposto à risada do povoléu. 

Pão e circo. Risadas e gozo. Dedos a apontar para mim.

Incapaz de suportar os enxovalhos dos adultos especados na entrada das portas soltando risadas de troça, a vergonha e o acanhamento foram-me enchendo o peito. 

Baixei a bandeira e pus a vara ao ombro, as Quinas a derramarem-se pelas costas abaixo até aos joelhos.

No outeiro sobre a vila, as escolas perfilaram-se para escutar os discursos dos adultos. Mandaram pôr-me na frente de bandeira ao alto. Procurei um pedaço de chão limpo para assentar os pés descalços. 

A criançada cantou desafinada o hino “Heróis do mar nobre povo”. A senhora que representava a Mocidade Portuguesa perfilou os seus cinco “Piolhos Verdes” e mandou-os esticar o braço, fazendo a saudação da Juventude Hitleriana.

Os senhores que representavam a autoridade falaram do orgulho pátrio e do povo. Disseram que a nação estava ali, na juventude de bata branca, mas não disseram se no futuro todos teríamos sapatos. Eu teria gostado de saber.

O vento estava atrevido, sacudia-me a bandeira como se não gostasse da festa. E eu aflito para a aguentar bem no alto. Aquilo nunca mais acabava e as formigas começaram a rondar-me os pés. Coloquei a bandeira ao ombro para melhor esfregar as pernas e bater com os pés no chão, enxotando o formigueiro.

À minha frente Dona Maria gesticulava como um sinaleiro num engarrafamento, queria, a todo o custo, que eu pusesse o estandarte ao alto. 

Fingi que não estava a ver e concentrei-me nos pés. No final um senhor com uniforme dos bombeiros perguntou-me porque é que eu marcava passo quando toda a gente estava parada. Não marcava passo, disse-lhe, era eu a enxotar as formigas.

O homem achou que eu estava no gozo e repreendeu-me pelo atrevimento, disse-me que o dia da raça não era para brincadeiras. Pois não, caminhar descalço com um espinho no calcanhar não era nenhum folguedo. 

Fixei-me então na Dona Maria, a severa decana das professoras. Era daí que vinha a ameaça. Ela avançava na minha direcção de dedo em riste e testa engelhada. 

Esfreguei os pés e afastei-me. 

Aquela era uma formiga que mordia a sério.

Subscreva a newsletter

Preencha o formulário abaixo e receba todas as semanas histórias e novidades diretamente na sua caixa de e-mail.

*os campos assinalados são de preenchimento obrigatório