Hoje trago-lhe uma nova história intitulada “A ida às sortes”, um evento com que me deparei quando era catraio e vagueava pelo terreiro da feira.
#44 A ida às sortes
Estávamos na década de cinquenta do século passado e eu era um miúdo curioso. Tinha ido à vila e o largo da feira estava despido de gente. No terreiro, uma vez por mês realizava-se a feira, mas naquele dia não havia feirantes na habitual barganha da compra e venda. Estranhei.
Havia filas de cavalos e mulas.
E filas de rapazes imberbes de papeleta na mão.
Olá, que animação é esta? Aquilo era novo para mim, aproximei-me e fui meter o nariz onde não era chamado. Havia duas tendas grandes da tropa separadas por uma centena de metros. Na da esquerda alinhavam-se os equídeos, na da direita os mancebos.
Os moços – alguns com ar apalermado e ranho nas fuças – entravam na tenda, tiravam a roupa com ar encolhido e, meio envergonhados, com a papeleta a encobrir os genitais – ai que vergonha senhor doutor! – eram recebidos por um escriturário e inspeccionados pelo médico militar em todos os recantos do corpo. Sei que era assim porque os ouvia comentar o espanto de se verem em pelota em mútua avaliação sobre o tamanho da coisa.
Neste ritual de passagem os moços saíam aliviados do escrutínio físico, ficando a aguardar os resultados sobre que destino as sortes lhes reservara – se sorte ou azar – dependendo se ficavam aptos ou inaptos para o serviço militar.
O mesmo acontecia com os solípedes, como são chamados os animais cujas patas possuem um único casco, bichos grandes que dão coices como o cavalo e a mula.
E lá vinham os donos com eles pela arreata para serem examinados pelos veterinários militares. Os equídeos não precisavam despir-se, já vinham sem roupa como é habitual num animal de quatro patas.
Mulas e mulos – animais híbridos pelo cruzamento entre jumento e égua, ou entre cavalo e jumenta – eram anualmente registados, tal como os cavalos e as éguas. Eram inspeccionados pelo exército para serem requisitados se houvesse guerra e a tropa precisasse de batalhões de cavalgaduras.
Será que os doutores da veterinária também espreitavam para o traseiro das alimárias? Espreitavam. Eu bem os vi levantar a cauda dos bichos quando eles precisavam dela para sacudir as moscas.
Tal como os seus parceiros humanos, os animais vinham às sortes para identificar se tinham saúde ou sofriam de moléstias e vícios tipificados no manual da veterinária do exército. Coisas como vertigens, doenças dos pulmões e do coração, doenças do sistema nervoso, síndrome da imobilidade, doenças aerodigestivas que provocam inspiração sibilante ou roncante, birras ou manhas que tornem o solípede impróprio para ser treinado e levado para o campo de batalha.
Quando tomei consciência das patologias nos bichos que iam à inspecção, dei por mim a pensar o que diria uma mula que no campo de batalha sofresse de síndrome da imobilidade: ó soldado, daqui não saio, se o inimigo está ali à frente, avança tu que és humano e carne para canhão.
Ou um cavalo com respiração sibilante, movendo-se no silêncio da noite, o cavaleiro a apertar-lhe os queixos e a segredar-lhe ao ouvido: cala-te, pá, tens o fole roto, olha que acordas o inimigo com os teus assobios.
Ou uma mula com birras e manhas, caprichosa, cheia de esperteza, a repudiar com dentadas e coices os soldados que a querem carregar com caixotes de munições: alombem vocês, suas bestas de duas patas, a guerra é vossa, eu não preciso de munições, só preciso descanso e palha da ração.
Os anos passaram. Tudo mudou.
Mudou o terreiro da feira e a inspecção militar ao ar livre. A mecanização do exército expulsou equinos e muares do campo de batalha, terminando com a sua ida às sortes. Sorte deles, azar dos moços com ar encolhido. Estes não tiveram o mesmo destino. Continuam a ser levados para o combate, não montados em solípedes mas em Panzers ruidosos a vomitar fogo.
Uns quantos ainda levam ranho nas fuças.
Alguns vão com ar apalermado.

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