Hoje trago-lhe “A nespereira das tentações”, uma ousadia que vivenciei quando em criança não resisti ao fruto proibido, não foi a maçã do Éden, mas quase.
#48 A nespereira das tentações
Tinha eu nove anos quando descobri que o paraíso existe, ficava a dois quilómetros da aldeia sob a forma de uma nespereira descomunal, ali plantada desde remoto tempo. Aquela árvore era um farol na paisagem, apresentava-se carregada de nêsperas cor de ouro que brilhavam ao sol como pepitas preciosas. Uma tentação que faria um santo virar pecador. Aquilo não era uma nespereira alta, era uma torre de catedral revestida a ouro.
O problema era que a nespereira pertencia a um dos homens mais abastados das redondezas, tão abastado e mesquinho que proibia que os aldeões que para ele trabalhavam, colhessem um punhado de nêsperas para levar aos catraios que tinham em casa. As nêsperas cresciam, amadureciam, despencavam da árvore e apodreciam no solo sem serem colhidas.
Mas naquele dia a tentação foi mais forte e venceu o bom senso que, diga-se em abono da verdade, aos nove anos é uma mercadoria bem escassa. Eu passava regularmente naquele carreiro, e de todas as vezes o meu olhar fixava-se, demorado, num apelo a querer saltar o muro e avançar para nespereira.
E saltei, naquele dia saltei como se fosse um cabrito-montês. Os calções mal me protegeram as pernas nas arestas do granito, mas eu saltei. Aproximei-me sorrateiramente e trepei à árvore com a determinação de um alpinista rumo ao Evereste. Subi, subi até bem alto, até ficar encoberto na copa, envolto por uma cortina de folhagem, deixando-me fora de vista de quem passava no carreiro.
E ali começou o festim. Nêsperas sumarentas, grandes, doces como o pecado, rebentando na boca numa explosão de sabor. Comia uma, cuspia os caroços e escutava ploc lá em baixo contra as folhas ressequidas da grande árvore. Comia outra, cuspia mais caroços e ploc, ploc. Aquilo era um concerto que me enchia de felicidade, uma juvenil transgressão que se prolongou pela tarde, um desafio ao abastado senhor da terra por ousar invadir-lhe a propriedade e subtrair o ouro da catedral.
Então a ameaça chegou na pessoa do caseiro que lhe governava as terras. Fiquei em alerta. Colei-me à nespereira como uma preguiça ameaçada nos galhos da árvore. Tornei-me numa estátua empoleirada com nêspera e caroços retidos na boca sem os poder cuspir. Fiquei refém da nespereira, vendo o caseiro a cirandar em redor da árvore nas lides da rega para o meloal.
E ali fiquei, colado ao tronco, rezando a todos os santos que conhecia, inventando alguns novos para virem em meu socorro. A tarde e o regadio do caseiro esticou-se como um elástico. O caseiro regava e assobiava, inspeccionava e meloal e falava sozinho com os melões que despontavam.
Cá em cima as minhas pernas e os braços adormeciam com a imobilidade, gemiam com dor, apelavam para eu descer daquela cruz nas alturas. Os caroços na boca tornaram-se pedras e eu meti-os no bolso dos calções, temendo que escapassem dos lábios e fizessem ploc, lá em baixo, pondo o caseiro a bisbilhotar o alto, a interrogar-se porque a nespereira soltava caroços em vez de um fruto completo.
O coração batia tão forte que eu temia que sacudisse os ramos e soltasses as nêsperas. A mente implorava: desce, desce, ou acabas esparramado lá baixo aos pés do caseiro.
Ganhei coragem e comecei a escorregar pelo troco. É agora ou nunca, não aguento as pernas. Saí da zona encoberta da ramaria e fiquei tão descoberto como vim ao mundo. Se o caseiro se virasse para trás dava comigo sem precisar de levantar os olhos. Já não era uma preguiça graciosa mas um urso bêbado, deixando pedaços de pele em cada ramo. Os calções rompiam-se e as pernas nuas cobriam-se de escoriações. Descer daquela nespereira alta numa sofrida lentidão, tornou-se a missão mais dolorosa da minha vida.
Toquei o solo de mansinho e gatinhei para dentro dos feijoeiros, mais altos do que eu, escondendo-me dos olhares do caseiro. Escapei-me como uma lebre assustada, o coração num galope desenfreado até alcançar o muro, e rebolar a para a segurança do carreiro que passava do outro lado.
Regressei à aldeia com arranhões nas pernas e nos braços, mas na barriga, à senhores, na barriga, vencido o terror das alturas e a chegada do caseiro, levava o mais precioso dos tesouros: uma barrigada de nêsperas que até hoje preenche a minha memória como a mais bela das ousadias. Nunca mais comi nêsperas tão douradas, tão doces, e tão perigosamente deliciosas.

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