Hoje trago-lhe uma história intitulada “Esta lenha é toda minha!”, uma memória de infância de quando quiseram roubar-me os paus que recolhi para a fogueira da minha mãe.

#49 Esta lenha é toda minha!

Terminei a escola primária aos dez anos, e na ida às aulas havia alunos que calçavam sapatos e outros que iam descalços. Como eu. Descobri que ler e escrever me abria janelas para um mundo que havia para lá da aldeia que eu não conseguia enxergar, um mundo onde na minha fantasia, toda a gente tinha sapatos.

Deixei a escola como quem deixa roupa gasta que já não nos pode aquecer. Eu queria o agasalho dos livros e das letras para continuar a aprender coisas novas, mas descobri que nascer pobre ou abastado faz toda a diferença para ser ou deixar de ser um zé-ninguém. Os meus colegas, filhos da burguesia, despediram-se e seguiram para o liceu e para estudos superiores. 

Eu segui para as obras como servente de pedreiro. 

Na vila reconstruía-se um prédio, puseram-me a retirar entulho para o exterior e a dar serventia aos pedreiros; trepava pelos andaimes para lhes levar tijolos e baldes de cimento, trabalho bem duro para uma criança franzina como eu era.

Com as mãos gretadas pela argamassa, regressava a casa derreado pelo trabalho e humilhações que sofria às mãos dos pedreiros. Subia pelos andaimes e os malditos atiravam-me bocados de telhas e punhados de cimento. Certa vez um filho da mãe sem ponta de decência, urinou lá do alto para cima de mim, entre gargalhadas e alarvidades. Eu odiava aquele trabalho, ó se odiava!

Ansiava pelo regresso a casa ao final do dia, e para encurtar caminho atravessava o pinhal perto do vazadouro da velha serração. As enxurradas vindas do interior da cerca tinham arrastado para o pinhal fragmentos de paus, resíduos de sarrafos, sobejos de madeira sem utilidade, deixando-os ao abandono na encosta. 

A minha mãe precisava de lenha para cozinhar, e recolher lenha no pinhal era outra das minhas tarefas depois de deixar o estaleiro. Ao fazer o desvio pelo vazadouro, comecei a namorar as sobras da serração que tanto jeito fariam para pôr a ferver a panela da sopa. O pinhal de tanto ser catado pouco tinha para oferecer, mas aquele vazadouro ao abandono, tornou-se um maná para eu recolher e levar para casa.

Naquele final de dia com as sacas de sarapilheira que trouxe comigo, apressei-me a ir recolher os sarrafos da serração espalhados na encosta.

Devia ter prestado atenção à mulher que começou a seguir-me à saída da vila. Tinha-a visto de longe, encostada a um muro, como se aguardasse a minha passagem, mas não identifiquei nela nenhum propósito hostil. Devia ter percebido que aquela mulher vestida de negro me espiava e seguia, desde que descobri que o vazadouro da serração era uma promessa de boa lenha. 

Caminhei para o pinhal, e na encosta comecei a amontoar os paus. Foi então que a vi chegar. Passos rápidos na minha direcção, quase a correr, vestida de negro, corpulenta, mangas arregaçadas nos braços tronchudos, a mulher empunhava um pau e ameaçava dar-me com ele: “Tira as patas da lenha, desaparece daqui!” 

Fiquei especado, surpreendido pela agressividade da mulher, pronta para o confronto, querendo apoderar-se dos paus que eu tinha descoberto e amontoado. Apontou-me o cacete e ameaçou: “Não tocas na lenha, esta lenha é toda minha, põe-te a andar, ranhoso!”

Não, a lenha não era dela, e eu não era ranhoso. Aquela lenha não pertencia a ninguém, eram restos arrastados pela chuva, fora o acaso que a deixara ali, e eu cheguei primeiro, fui eu que a descobri e comecei a recolher. E agora aquela mulher ameaçava roubar-me e dar-me com o porrete?

Ponderei a situação. O que podia eu fazer, miúdo de dez anos, perante uma mulher crescida armada com um pau? Estava em desvantagem, humilhações, eu já recebia dos pedreiros, mas daquela mulher decidi não ia receber nenhuma. Não podia com ela, é verdade, mas não ia permitir que me roubasse a lenha que fazia tanta falta à minha mãe. 

Afastei-me pelo pinhal com as sacas de sarapilheira debaixo do braço. Mas não fui longe. Escolhi uma elevação encoberta por pinheiros rasteiros, e deitei-me na caruma a observar a salteadora. Vi-a recolher a lenha, ajuntá-la e escondê-la no bordo da ravina, cobrindo-a com mato e ramos de pinheiro para não ser encontrada. Com as sombras do crepúsculo a cobrirem a encosta, percebi que escondia a lenha para a vir buscar no dia seguinte. Ajeitou o esconderijo, olhou em redor, e afastou-se ao lusco-fusco em direcção à vila.

Esperei um bocado e dirigi-me à ravina, ao local onde ela escondera e amontoara os paus. Assegurei-me que estava sozinho e enchi as duas sacas com os melhores pedaços. 

Cada saca ficou enorme depois de entulhada com sarrafos. Estavam pesadas para as levar às costas; uma e outra vez fi-las rebolar pela encosta até à estrada que passava em baixo. Deixei-as na valeta para não serem vistas se alguém passasse por ali.

A aldeia estava adiante. Cheguei a casa com a noite a cobrir o casario. A minha mãe ainda não regressara do trabalho no campo. No pátio tínhamos uma carreta de duas rodas – tipo riquexó –, meti-me entre os varais e desci a estrada até junto das sacas. Carreguei-as com dificuldade. 

Regressei a casa puxando a carreta como um burro de carga. As rodas rangiam na estrada de terra, eu arfava e gemia com o esforço, imaginando o contentamento da minha mãe por ter aqueles paus resinosos na fogueira onde cozinhava a ceia.

Naquele dia aprendi que o mundo não se dividia entre o que era justo e o que não era. Dividia-se entre quem chegava primeiro e quem ficava com as sobras. E aprendi uma lição: nunca temer quem nos ameaça e nos acusa injustamente. Nunca. Nunca!

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