Hoje venho falar-te de um padre que marcou a minha infância. Não, não é o que estás a pensar, o homem nunca se atirou a mim. Simplesmente deixou-me um traço na memória. Podia falar-te de outros tipos que me deixaram marcas: cozinheiros, médicos, vendedores, sapateiros, editores, advogados, sei lá, montes de gente. Mas falo-te deste padre. Pronto. 

Há os mediadores imobiliários que tentam vender-nos uma casa com bolor, onde o sol só bate nas janelas por alguns minutos. Este padre não vendia casas, vendia promessas de salvação, era um mediador entre os paroquianos e a divindade. Também era merceeiro, pelo menos agia como tal.

“Por um pedaço de pão”, uma história de vida sofrida, não minha, mas da minha mãe.

#5 Por um pedaço de pão

O padre responsável pela distribuição dos alimentos da Cáritas fazia exigências muito pouco cristãs. As mulheres que lhe suplicavam ajuda para os filhos só recebiam a comida enviada pelo Tio Sam no final do mês. 

Se esfregassem o sobrado da igreja todas as semanas.

Se limpassem o sarro às estatuetas dos santos. 

Se assistissem à missa todos os domingos. 

Se cumprissem estas penitências semanais receberiam uma senha de presença que dava direito a receber a ajuda vinda do outro lado do Atlântico. Só no final do mês. O padre copiava a modalidade do passageiro frequente das companhias aéreas: somar pontos para receber um benefício suplementar.

A minha mãe era uma das vítimas do clérigo de sotaina preta. Uma penitente que implorava por um pedaço de pão. Não lhe bastava cuidar do rancho de filhos e padecer sob as violências do marido bruto. Não lhe bastava trabalhar de sol a sol na quinta do senhor feudal para ganhar umas moedas e comprar farinha para a broa, azeite, macarrão, açúcar, café, petróleo para o candeeiro de iluminação. 

Derreada por um cansaço que a consumia, ainda tinha de submeter-se à tirania do padre ao fim de semana: ao sábado lavava e limpava a igreja, ao domingo assistia à missa. O céu alcançava-se com sabão amarelo e lixivia, dores nas costas e joelhos esfolados.

O padre agia como um despótico merceeiro, um César de aldeia a distribuir migalhas, a mercadejar Deus com a ajuda enviada das Américas.

A minha mãe envelhecia ao fim de semana ao arrastar-se por aquele chão de tábuas em lavagens e rezas. Tudo por um pedaço de pão, um púcaro de leite em pó, duas malgas de farinha, um pedaço de queijo processado do Wisconsin.

Do altar, o nazareno observava as homilias do padre e assiduidade das penitentes. Como a minha mãe.

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