A história de hoje, “Sãozinha tinha fogo nos lábios”, é uma memória de juventude, quando a curiosidade sobre o corpo começava a despertar, e duas crianças o sondavam em mútua descoberta.
#50 Sãozinha tinha fogo nos lábios
O primeiro beijo foi desajeitado. Eu tinha nove anos. Ela onze. Sangue quente, apesar da pouca idade, Sãozinha era expedita nos jogos de sedução. Conhecia coisas que eu ignorava e quis mostrar-me habilidades de adultos. Escutara conversas aqui e além, tinha uma prima mais velha, em Coimbra, que lhe contava atrevimentos de namorados, fantasias de êxtase e paixão.
E decidiu praticar comigo.
A aldeia era de pedra cinzenta, casas que cheiravam a mofo, missas ao domingo, mulheres envoltas em xailes pretos seguindo homens de chapéu na cabeça e guarda-chuva no braço. Atmosfera pesada. Costumes antigos, escassa liberdade.
Mas atrás do caramanchão frondoso do senhor feudal da aldeia, eu e Sãozinha ousávamos liberdades de gente grande, ousadias de beijos e afagos muito consentidos.
Fora dali eu e os rapazes brincávamos em correrias de índios e cowboys, tiros imaginários e muitas gritarias. Cansados de tiroteios jogávamos com a bola de trapos, competíamos em jogos sem hora para terminar – muda aos cinco e acaba aos dez, era a infalível regra de arbitragem. Eu corria sempre de olhos no portão. Esperava. Às vezes desesperava pela demora.
Esperava pelo momento em que a Sãozinha aparecesse discretamente por trás do muro, cabelo escuro, procurando-me entre a algazarra da criançada, sorriso aberto num convite, fazendo-me sinal com a mão: anda, vem!
E eu ia. Obediente. Indiferente aos protestos da equipa que se via desfalcada do seu melhor avançado, ou perseguidor de peles-vermelhas.
O caramanchão situava-se discretamente no interior da propriedade. Estrutura de madeira rodeada de buxos, coberta de hera selvagem, sombra perpétua em qualquer momento do dia. Refúgio perfeito. O nosso refúgio.
Quando me aproximava, Sãozinha já me aguardava no interior do caramanchão, sentada no banco de madeira que rodeava o interior. Chegava primeiro para me receber. Ao ver-me, alisava o vestido, ajeitava o cabelo e estendia-me a mão para me sentar ao seu lado. Sussurrava-me ao ouvido: vamos brincar aos casais?
Éramos crianças no pino do verão ensaiando jogos de sedução, fingindo sermos adultos, praticávamos ousadias que misturavam curiosidade e cénica representação. Como um mestre de palco, Sãozinha distribuía papéis e mostrava-me o que fazer: eu sou a mãe e tu és o pai do nosso bebé. E dávamos beijos encostando as bocas de lábios secos que ela amaciava com a língua e saliva. Mostrava-me os lábios húmidos para darmos beijos de verdade como era suposto ser, lábios entreabertos, língua a sondar a boca, a mão dela na minha nuca a puxar-me na sua direcção.
Deitava-se sobre o banco de madeira e pedia para eu me deitar sobre ela, recomendando: não me amachuques o vestido. Fora do caramanchão o calor sufocava, as cigarras cantavam nas oliveiras, e Sãozinha preocupada com o vestuário pediu: troca de posição para não me amachucares a roupa, senão a minha mãe vai dizer que andei a rebolar por aí.
Éramos duas crianças a mapear territórios desconhecidos, mas num dos encontros eu quis avançar na paisagem para descobrir o tesouro imaginado. Tentei desapertar-lhe um botão da blusa. Sãozinha apoiou a mão no meu joelho, e murmurou-me ao ouvido para passear as mãos por cima da roupa, nunca por baixo dela.
Depois, sem aviso, atirou: sabes, vamos ter um bebé. Gelei. Pânico. Tinha nove anos e pensava que beijos, mesmo os de trocar salivas não eram suficientes para fazer bebés. Será que ela sabia coisas que eu ainda ignorava?
Ela riu-se do meu ar assustado e disse: é um bebé faz de conta, palerma. Respirei mais tranquilo. E ela continuou: eu sou a mãe, tu és o pai, o bebé vai ser aquela pedra ali. E apontou para um calhau redondo coberto de líquenes à entrada do caramanchão.
Ela embalou a pedra. Cantou. Fingiu dar de mamar. Ordenou-me que construísse uma casa para a família. Com gestos de mãos fiz quatro paredes e um telhado imaginários. Ela aprovou. Disse que eu era um bom marido, e quando crescêssemos havíamos de casar a sério. Era uma promessa distante.
Setembro chegou e eu retomei a escola. Sãozinha partiu para grande cidade.
Passaram os anos. Sãozinha tornou-se uma memória difusa de contornos esbatidos, uma fotografia esmaecida pelo tempo e pelo sol. Não me esqueci daqueles dias de sedução e inocentes descobertas. Cresci. Dois anos mais tarde também eu deixei a aldeia, apanhei o comboio para descobrir Lisboa.
Calcorreei a cidade durante sete anos a fazer entregas a clientes de mercadorias produzidas na oficina. Sonhos, desilusões, interrogações sobre o futuro acompanharam-me por aqueles anos. Então um dia, ali para os lados do Alto de Santo Amaro, quando descansava da carga que levava às costas, vi uma rapariga atravessar o largo. Devia ter dezanove, vinte anos. A jovem adornara-se com os enfeites da beleza, estava mais alta, mas a forma de andar era a mesma. Reconhecia de imediato. Quando me encarou reconheceu-me e sorriu. Um sorriso desenhado numa boca que eu conhecia bem. Sãozinha. Sim era ela depois de tantos anos. Beijámo-nos na face, quase com pudor. Senti-lhe o calor do rosto. Conversámos sobre trivialidades. Depois ousei perguntar-lhe:
-Lembras-te dos dias no caramanchão?
-Lembro, claro, como podia esquecê-lo?
-Foste o meu primeiro beijo.
-E tu o meu.
Olhou-me com um olhar meigo que podia significar tanta, tanta coisa. Conversámos algum tempo e, por fim, separámo-nos com outro beijo na face. Não foi como quando éramos crianças. Foi o fechamento dum ciclo. Foi o encerrar de uma memória que teve forte significado, apesar da nossa pouca idade, apesar da nossa juvenil cumplicidade.
A partir daí nunca mais nos vimos.
Nunca mais nos viemos a encontrar.

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