A história de hoje intitula-se, “Um rio cheio de verão”, um relato de quando no pico do calor de Agosto decidi ir até ao rio dar uns mergulhos. Mas não fui sozinho, levei a cabra comigo.
#51 Um rio cheio de verão
Naquela manhã acordei com pouca vontade de sair da cama. Ignorava que o dia seria atribulado. No curral a cabra berregou a pedir comida. A minha mãe levou-lhe um punhado de couves e ordenhou uma malga de leite. A cabra acalmou-se e eu fui beber o leite com os meus irmãos.
Ao sair para trabalhar no campo, a minha mãe disse-me que eram horas de ir pastorear o animal. Estávamos em Agosto e era difícil encontrar erva verde, mas lembrou-me que se queria beber leite tinha de levar a chiba a pastar erva decente. E teria de voltar à hora de almoço para proteger o animal do pico do calor.
E eu fui. Levei a cabra pela arreata para as redondezas da aldeia onde o mato parecia ter algum viço. Ela tasquinhava a carqueja e olhava-me de lado a questionar se aquilo era alimento de jeito. Não era, mas não encontrei nada melhor, por agora tinha de haver-se com a magreza do pasto.
O verão trouxera calor e Agosto era um forno abrasador. O chapéu de palha na cabeça não era grande coisa, mas não tinha outro para me proteger. O pinhal cheirava a resina, libertava odores de mato seco e enchia-se com estridentes cantorias de cigarras. Com o sol a subir no alto e a fazer escaldar as pedras, o corpo implorava por um sopro de frescura.
Eu e a cabra destilávamos quando os três garotos passaram no caminho e me desafiaram a segui-los até ao rio. Éramos colegas de folguedos, e ir ao Mondego dar uns mergulhos, pareceu-me decisão sensata num dia em que o ar era caldo na respiração. Vi a cabra com a língua de fora e pensei: se a levar comigo talvez encontre um sítio abrigado e algum pasto de jeito.
O Mondego estava a meia hora de caminho. Eu e a chiba pusemo-nos a andar por veredas ladeadas de silvados ressequidos. Os rapazes corriam na frente, a cabra resistia a andar depressa. Puxava-a pela corda mas o ritmo dela não era o meu, muito menos o dos colegas da estroinice.
Descemos pela encosta do Freixieiro. Lá ao fundo corria o leito seco do rio. O areal brilhava ao sol. Nos recantos da margem havia fundões, verdadeiras piscinas naturais onde a água parara de correr junto aos penedos, lugar perfeito para saltar num mergulho refrescante.
Para não sobrecarregar a cabra deixei-a presa a um pinheiro a meio da encosta. O mato era escasso mas ficaria à sombra. Por agora. Naquela altura rotações e translações só conhecia as do pião, não as do planeta Terra. Devia saber que com o passar das horas a sombra do pinheiro ia mudar de sítio e deixar a cabra à soalheira.
Não pensei em nada e corri lá para baixo de chapéu na mão, o sol a martelar a nuca. No rio a garotada despira a roupa e aos gritos saltava do penedo para mergulhar. Corri pelo areal, despi a roupa e em pelota foi a minha vez de dar um salto. Gargalhadas, respingos, frescura, enguias a escaparem-se para debaixo das pedras. Céu de azul intenso, verão a testemunhar a ousadia da garotada. Puro deleite.
Passaram as horas e eu sem dar por elas. Esqueci a cabra. Esqueci o regresso à hora de almoço, esqueci as recomendações maternas. Era liberdade de braço dado com a irresponsabilidade. O sol a rodar no céu. A cabra a afoguear na canícula. Eu a nadar na água tépida do Mondego.
Era meio-dia quando a minha mãe chegou derreada. Entrou em casa. Chamou-me. A casa respondeu-lhe com a minha ausência. Da cabra no curral e de mim a atear a fogueira para cozinhar a manja, nem sinal. Voltou a chamar. Nada. A vizinha linguaruda revelou: o seu rapaz foi para o rio, vi-o com aquela garotada.
A minha mãe esqueceu o almoço e o cansaço. Atirou-se ao caminho poeirento à procura do filho. Caminhou à torreira no pino do calor. Do alto do Freixieiro viu a cabra a meia encosta atada ao pinheiro a berregar de calor. E viu lá ao fundo a criançada em pelota a chapinhar. Ouviu gritos e risadas do filho rebelde. Agora sabia onde eu estava. Não disse nada. Desamarrou a cabra e levou-a de volta a casa. No rio, nós, ignorantes, continuámos a brincar com o destino.
A meio da tarde a fome começou a roer por dentro. O sol estava a baixar e as sombras dos chupos avançavam no areal. Percebemos que eram horas. Eu percebi que eram horas. Sobressalto. Súbita consciência que o irremediável acontecera. Lembrei-me da cabra amarrada ao pinheiro. Lembrei-me do regresso a horas decentes. Oh, Deus! Vesti a roupa e corri encosta acima sem esperar por ninguém.
Cheguei ao pinheiro e encontrei o vazio do animal. Alarme! O mundo desabou-me em cima. Pânico. Perdi a cabra! Perdi a cabra! O coração num galope desvairado à procura de respostas. A cabra fugiu? Foi roubada? Lobo, se calhar foi um lobo. Não, não podia ser, lobos não comem cordas e a corda desaparecera, fora desatada. Aterrador desfecho: alguém… alguém desatou a corda e levou a bicha. E agora? E agora? Corri para casa a matutar nas aldrabices que contaria à minha mãe.
Corri de regresso à aldeia, pulmões a arder, terror a subir nas pernas. Sabia como a cabra era importante para a minha mãe, sabia que o leite da bicha colmatava parte das nossas penúrias.
Cheguei a casa a bufar de cansaço. Atravessei a cancela do pátio e fui espreitar o curral. A cabrita estava lá. Estava lá! Viva. A comer folhas de couve. Comovi-me ao vê-la recuperar do abandono em que a deixei.
Depois olhei para a porta de entrada. Na ombreira a minha mãe aguardava. De pé, silenciosa, esfíngica, rosto sem expressão. Assustei-me, nunca antes a vira assim. Na mão direita empunhava a velha colher de pau, grossa, comprida. Ameaçadora. Gelei quando ela disse: Podes vir, chega-te a mim!

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