Esta história intitula-se, “O odor do chocolate”, um relato de quando em criança eu encontrava na rua tesouros perdidos e os recolhia para embelezar os livros da escola.
#52 O odor do chocolate
Atirados pela janela do casarão senhorial, abandonados entre as ervas do caminho, resplandeciam com a luz do entardecer. Brilhavam como pepitas ao sol. Eu via-os cintilar e recolhia-os como preciosidades raras.
Rectângulos dourados de papel espesso, texturado, usado para embrulhar trufas e bombons, tinham aquela aparência rústica, requintada dos produtos luxuosos. Mas era o odor a chocolate que ainda se desprendia de alguns que me provocava uma experiência sensorial, rara, espicaçando o desejo de aspirá-los: Hum! Como seria bom sentir derreter na boca o chocolate que esteve embrulhado naquele papelinho!
Eu recolhia as folhas douradas e alisava-os com a unha do polegar ou com uma colher contra a mesa da cozinha. Restituía-lhes a dignidade que o consumo lhes havia retirado, porque o chocolate, esse, há muito que desaparecera na boca gulosa dos senhores que habitavam o casarão.
A minha recolha não era um gesto de pobreza ou mendicidade. Deixemos isso claro desde já, antes que o leitor construa na sua imaginação uma cena de Dickens, com neblina londrina e um rapazinho de olhos fundos a estender a mão. Não. Era outra coisa.
Era o desejo de embelezar os meus livros da escola com aquelas estampas douradas, decoradas com estrelas e flores que outros deitavam fora como se fosse lixo. Para eles seria, para mim eram tesouros abandonados no caminho para o fontanário.
Eu enfeitava o meu livro de leitura da 3ª classe com aquelas pepitas recolhidas na rua, tornando o livro um jardim de papel perfumado. As outras crianças tinham livros iguais, mas os meus eram únicos. Davam nas vistas pela beleza a refulgir entre as folhas, e pelo odor a chocolate que emanava das páginas.
Lembro-me de numa lição sobre vindimas estar escrito: As vindimas são o trabalho mais alegre das fainas agrícolas. Homens e mulheres entram nos vinhedos com redobrada alegria porque a faina é leve.
Era criança mas discordava em absoluto. Quem escreveu aquelas linhas nunca andou de corpo dobrado a vindimar de sol a sol, ou a carregar cestos de uvas às costas ou à cabeça, subindo e descendo ladeiras. O texto era bonito, mas pouco verdadeiro. As fainas agrícolas sempre foram duras e desgastantes. Sei-o porque labutei na lavoura a ajudar os meus pais nos trabalhos do campo, e via quão duro era arrancar da terra comida para pôr na mesa.
Para enfeitar aquelas páginas ingénuas sobre vindimas, eu escolhia os papelinhos vistosos de cor roxa e azul-escuro, semelhantes às uvas maduras colhidas nas videiras. Mas se a lição era sobre cerejas e maçãs, eu escolhia papelinhos vermelhos a condizer com a beleza da fruta. Se era sobre searas na época da ceifa, seleccionava papelinhos dourados, cor do estio.
Hoje, quando passo na rua e vejo um papel dourado, atirado ao chão sem cuidado, por vezes faço um movimento involuntário com o pé, um gesto que é um eco desse passado distante. Olho o papel e penso na pessoa que comeu o chocolate, a qual nunca saberá que houve uma criança que embelezava os livros da escola com o que encontrava perdido: o ouro que outros deitavam fora.

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