A história de hoje, “Tinha espíritos no corpo”, é uma narrativa capaz de pôr os cabelos em pé, mesmo aos leitores desprovidos de cabelo.
#53 Tinha espíritos no corpo
A notícia espalhou-se como fogo na palha. Na aldeia de cima a Gervásia caíra à cama, uma voz que não era a dela saía-lhe de dentro do peito. Roncava e ameaçava, exigia o cumprimento de missas e promessas caídas em esquecimento.
Os vizinhos escutaram os roncos e vieram acudir à Gervásia, prestar-lhe algum socorro. Viram-na retorcer-se sobre o colchão, feições deformadas, e estacaram à entrada do quarto de cabelos em pé. Benzeram-se. Murmuraram preces. Que era aquilo? Ai senhor, aquela cara beiçuda não era a da Gervásia, era o demónio a possui-la por dentro.
As convulsões arrastaram-se por um dia e uma noite. Depois, de madrugada, a Gervásia sentou-se na cama como se estivesse a acordar duma soneira bem dormida. Ajeitou a saia, subiu o pavio do candeeiro a petróleo para alumiar a penumbra, e surpreendeu-se com as vizinhas dentro do quarto, observando-a, expectantes.
Tempos depois a cena de estrebuchamentos, repetiu-se. A aldeia, como é natural nestas circunstâncias, dividiu-se. Havia os que acreditavam que a Gervásia encarnava almas do outro mundo, e havia os que achavam que aquilo era apenas uma maluqueira da mulher.
A garotada traquina, na qual eu me encontrava, tinha escasso saber sobre as fragilidades humanas, aceitávamos o que tinha cor e feitio, coisas que podiam ser tocadas com as mãos. E pouco mais. Ignorávamos tudo sobre essa coisa etérea dos espíritos que encarnavam em gente do povo, como a Gervásia. Achámos que aquilo era uma festa. Só podia ser, com tanta gente a caminhar para o mesmo local.
E fomos bisbilhotar. Como diriam os mais velhos, meter o nariz onde não éramos chamados. Mas fomos.
A curiosidade juvenil não conhece barreiras. Arregalámos os olhos de espanto ao escutar as conversas dos mais velhos sobre aparições, almas do outro mundo, lobisomens e bisarmas fantasmagóricas. Duvido que aqueles analfabetos soubessem do que falavam. Que importava isso, nós, a miudagem das duas aldeias também éramos ignorantes, mas aquelas histórias de mistério, narradas a meia voz com temor e benzeduras, eram um regalo para os ouvidos.
Então soube-se que a Gervásia tornara a cair à cama num transe de assombrações, desta vez, tão forte que suspendeu o ganir dos cães que ladravam ao desafio pela aldeia. Ao anoitecer as comadres envolveram-se em xailes escuros e puseram-se a caminho da casa, como se aquilo fosse um velório.
Num acto solidário eu também quis ir. A minha mãe tentou demover-me: não vais, ficas em casa, aquilo não é sítio para crianças nem lugar de brincadeiras. Não era, certamente. Mas fui. Ver aqueles adultos a remoer acontecimentos que ultrapassavam a sua compreensão, era uma tentação quando observado de perto.
A casa da Gervásia virara um poiso de curiosos. Para não esmorecer com o frio da noite, os homens aqueciam-se com goles de aguardente e calor da fogueira que acenderam na rua. As mulheres, recolhidas sob o alpendre, acaloravam-se com a reza do terço e cabeças de alhos como protecção. Religiosidade e paganismo. Crenças arrancadas ao fundo dos tempos.
Importa dizer que nestes ajuntamentos nocturnos, em nenhuma ocasião os espíritos ou almas penadas que atormentavam a Gervásia, apareceram para incomodar os vizinhos. Na casa nenhuma mesa girou. Nenhuma vela se apagou sozinha em circunstâncias inequivocamente sobrenaturais. Se alguma coisa havia de estranho, passava-se no corpo da Gervásia. Os olhos reviravam-se num branco de moribunda, e a voz que lhe ribombava no peito assemelhava-se ao ronco surdo dum vulcão.
Na cama, a Gervásia estava possuída por uma força sobre-humana, desajustada naquele corpo franzino. Tinha aversão a objectos sagrados, estrebuchava e ameaçava quando lhos mostravam. No dia em que trouxeram o padre para lhe aspergir água-benta, deu tamanho safanão no clérigo que o atirou contra a parede, desamparado.
Mesmo sem manifestações do além, a casa tinha um ar sombrio. Ficava no extremo da aldeia. Nas traseiras, o quintal era a parte mais acolhedora. Havia uma figueira que dava sombra e abundantes figos pingo-de-mel, de casca amarelada, doces, sumarentos. Eu sei porque comi alguns.
Quando os seres incorpóreos começaram a vaguear na casa e no quintal, a figueira deixou de dar figos. Murchou. As comadres mais próximas do senhor prior, munidas dum conhecimento de sacristia, foram peremptórias: aquilo eram almas penadas caídas do céu a amaldiçoar a figueira, isso vem registado nos Evangelhos, e tudo o que a Bíblia diz é para ser levado a sério.
Então, coisas estranhas aconteceram. Havia uma janela que rangia de madrugada sem que houvesse vento. Escutavam-se passos sobre o soalho sem que ninguém deste mundo caminhasse pela casa. Os gatos que se acolhiam nas traseiras para pernoitar junto do forno, saltaram os muros e desapareceram de pêlo encrespado, como se alguma coisa ameaçasse os felinos.
Com o passar do tempo os gaiatos deixaram de achar graça às assombrações na casa da Gervásia. Um temor reverencial e o receio de provocar entidades estranhas, foi-se impondo. Deixámos de fazer piadas e atirar pedras ao portão. E vá-se lá saber porquê, eu podia caminhar pacatamente pela rua, mas ao aproximar-me da casa assombrada, desatava a correr sem olhar para trás, só parava mais acima perto da oficina do sapateiro.
Mesmo depois da Gervásia ter abandonado a aldeia – dizia-se que fora para Coimbra tratar da saúde –, a casa vazia na curva da rua, intimidava quem passava. Os operários que de madrugada vinham das redondezas e se dirigiam à vila para trabalhar na serração e na cerâmica de tijolos, mal se aproximavam do volume sombrio da casa, buscavam um ânimo suplementar: uns começavam a assobiar, outros chamavam por aquele que já tinha passado e ia lá mais adiante.
Podemos andar de avião entre as nuvens, compreender a essência do átomo, decifrar o código genético, mas carregamos nas entranhas os medos ancestrais dos primórdios da raça humana: medo do escuro, medo das feras, medo das aparições fantasmagóricas. Ficamos em alerta se detectamos risco ou ameaça: o coração aos saltos, a respiração ofegante, a súbita consciência da nossa vulnerabilidade.
Passaram os anos. Só excepcionalmente retornei à aldeia. Da Gervásia nunca mais ouvi falar. Da casa das assombrações consigo passar por ela sem correr. Só me assalta uma dúvida: os deliciosos figos pingo-de-mel que eu e os pássaros degustámos tantas vezes, terão regressado à figueira?

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