Sabes o que são milagres?

Pouca gente sabe, mas talvez eu possa esclarecer. É um acontecimento extraordinário que à luz dos sentidos e conhecimentos científicos parece não ter explicação assente nas leis naturais, sendo uma violação dessas mesmas leis. As religiões nutrem-se muito destes eventos sem explicação racional.

O milagre narrado na história que hoje te proponho explica-se facilmente.

“O milagre de Jesus”, uma história contada pela minha avó na frescura da casa em dias de grande calor.

#7 O milagre de Jesus

Quando comecei a prestar atenção às conversas dos adultos e a entender o que diziam, nos dias de canícula a casa térrea da minha avó era um refúgio de frescura, um convite a escutar revelações que não ouvíamos em outro momento. Uma vez ouvi dela uma narrativa singular, misturava divindades e mundo profano. Então ela contou-nos a seguinte história: 

Jesus tinha o hábito de vir ao povoado e os aldeões esperavam por ele. Ansiavam pela boa nova que ele trazia para os confortar, esperavam que ele proferisse o seu nome e não se esquecesse deles. 

Jesus era estimado pela gente simples, quando o viam aproximar-se corriam a avisar os aldeões que andavam nos campos. Largavam o trabalho na horta, o rebanho, a sementeira, e aproximavam-se expectantes sobre o que Jesus podia trazer-lhes nesse dia.

A maioria não sabia ler. Aproveitavam a sua presença e estendiam-lhe papéis com letras, pediam-lhe ajuda para revelar o significado das palavras. Podia ser uma carta vinda de longe ou instruções de farmacopeia para enfermidades do corpo. 

Jesus não se fazia rogado, atendia uns e outros. Mostrava-se disponível, mesmo que isso o atrasasse na caminhada para a aldeia seguinte. Aquela era a altura em que os aldeões recebiam o subsídio de velhice. Sentados no banco de pedra à entrada da aldeia, esperavam a chegada de Jesus com o alforge ao ombro. 

Nesse dia iam receber a ajuda vinda de longe. Uns mais, outros menos, outros nada. Difícil de entender aquele critério da autoridade na distribuição do subsídio. 

Os velhos que nada recebiam ficavam descontentes, queixavam-se a Jesus. Pediam-lhe ajuda. A velhice é um padecimento idêntico, tem necessidades semelhantes, um pão é um pão desejado por todos os velhos de modo igual. Então porquê uma distribuição tão desigual? 

Jesus era justo. Conhecia o problema. Aproximou-se das casas pensando num jeito de amparar os que nunca recebiam coisa alguma. Um milagre era o que os mais humildes esperavam dele.

Sentados no banco de pedra viram-no chegar. Alegraram-se com sorrisos na boca desdentada. Jesus, bem-vindo, exclamavam quando o viram aproximar-se das primeiras casas. 

A criançada correu saltando os muros. As mulheres largaram a roupa no estendal. Os velhos tropeçaram nas bengalas e aceleraram o passo. As aguadeiras largaram os cântaros no chafariz. 

Jesus abriu o alforge e foi retirando envelopes. Chamou pelos nomes que lá vinham escritos. Os contemplados com o subsídio de velhice sorriam e afastavam-se recompensados. Os crentes murmuravam uma oração, os sedentos dirigiam-se à venda do Avelino e pediam um quartilho de vinho, as mulheres um quartilho de azeite para dar gosto ao caldo, os doentes um unguento para as dores no peito. Aquele dinheiro aquecia-lhes os bolsos e a alma.

Jesus entregou todas as cartas para aquela aldeia. Preparou-se para seguir caminho. Na sua frente meia dúzia de anciões permanecia de mão estendida, lágrima no olho, rosto desgastado pelas rugas. 

Imploravam por ajuda. 

A carta com o subsídio nunca chegava até eles, eram os eternos excluídos. César ignorava-os. Era como se não existissem, gemiam. Jesus ajuda-nos, sabemos que tu podes, não te esqueças de nós. 

Jesus ergueu os olhos ao céu. Só um milagre podia confortar aquelas almas sofridas. Os velhos olhavam-no de mãos vazias. Jesus afastou-se uns metros. Caminhou até um recanto. Ocultou-se dos olhares curiosos. Um milagre, sendo um gesto de fraternidade deve ser feito com recato, sem alardes, com humildade. 

Espreitou para dentro do alforge. Abriu algumas cartas destinadas à aldeia seguinte e retirou uma parte do dinheiro. 

Fez sinal aos velhos para se aproximarem. No olhar triste deles sobressaía um vestígio de esperança. Que o milagre se realizasse.

Jesus repartiu o dinheiro. 

Na mão de cada velho depositou uma parte. 

Um homem com uma cicatriz no queixo queixou-se: só isto? Um outro, agradecido, beijou a mão de Jesus, sabia que os milagres podiam acontecer. 

Jesus retomou a marcha. Tinha outras aldeias para visitar. À saída do povoado sentou-se num horto para beber água. Limpou o suor da testa e passou um pouco de água pela cara para se refrescar.

Na estrada ouviu um clamor. Avistou um grupo de aldeões avançando na sua direcção. Discutiam em voz alta. O homem da cicatriz no queixo apontou na sua direcção: é ele, disse, é ele! 

De uma esquina surgiram os guardas, quatro. Apontaram-lhe as armas e prenderam-no. Meteram-no Jesus no jipe e levaram-no algemado.

Um homem que não presenciara a detenção perguntou o que acontecera. Disseram-lhe que a GNR viera prender o carteiro, o Manuel Jesus, aquele gajo apalermado que distribuía o correio e ajudava os velhos a ler as cartas… levaram-no preso. 

Porquê, se ele é um homem bom? 

Abria as cartas e retirava o dinheiro. 

Para ele? 

Não, para dar aos que nada recebiam.

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