Sabe o que é um tsunami?
A palavra tem origem no Japão. É uma onda gigante que se forma no oceano por meio de grandes agitações nas águas, pode ter origem em movimentos tectónicos ou no impacto de um meteorito. Nesta minha história não chegamos a tanto, mas que deixou a aldeia em alvoroço, lá isso deixou.
Leia “O tsunami de vinho”, uma história da minha infância, e pasme com a minha ousadia.
#8 Um tsunami de vinho
Um dia, lá pelos meus cinco anos de idade, decidi ir à descoberta da aldeia. O povoado não era grande, mas para um puto acabado de vir ao mundo aquilo era enorme. Podia ter feito como os pirralhos do meu tamanho e ir espreitar os ninhos de andorinhas ou atirar pedras às rãs na represa de água.
Podia, mas não o fiz.
Quedei-me encantado com o ruído dos motores de rega a tirar água dos poços para regar os campos de milho, pasmado com aquele tututututu dos motores, vendo o jorro da água a brotar dos canos.
Mas o que captava a minha atenção era o mistério da adega na casa senhorial do Neves, o ricaço das padarias na capital. No dia em que o caseiro se esqueceu de trancar a porta, eu entrei.
Caramba, aquilo era enorme.
Grande como uma igreja.
Amplo como a caverna de Ali Babá.
Fresco. Sombrio. Assustador.
Dezenas de toneis da altura de dois homens alinham-se como penedos gigantes, pançudos de vinho, emproados na solenidade do deus Baco. As torneiras de metal destacavam-se brilhantes e captaram a minha atenção. Tinham uma alavanca onde se podia puxar. Tinha visto a caseiro puxar por elas para sangrar o monstro.
E quis imitá-lo.
Posicionei-me no primeiro tonel e dei um puxão na torneira. Um jorro de vinho tinto desabou-me sobre as pernas, espraiando-se pelo lajeado do chão. Sorri, feliz, e pus-me a chapinhar com os pés como tinha visto fazer aos homens a esmagarem as uvas na vindima. Gostei do odor acre do vinho e da cor ruby envolvendo-me as pernas.
Passei ao segundo tonel e repeti a graça.
Ao terceiro.
Ao quarto.
Ao quinto…
Não me lembro quantos toneis tinha a adega, sei que eram muitos. Muitos mesmo. Uma dúzia, talvez. Mas lembro-me que abri a torneira de todos eles.
A adega transbordou num lago onde se podia nadar. Uma dúzia de torneiras de boca larga troavam, vomitando para o chão o vinho das últimas colheitas.
As Cataratas de Niagara rugiam na adega do Neves.
A enchente espraiou-se por debaixo da porta, alastrou para o passeio na rua e correu pela valeta num caudal em dia de trovoada. Os pardais aproximaram-se e molharam o bico. Não sei se a passarada virou um bando de bêbados a voar aos tombos, mas lembro-me do alarme entre os vizinhos ao observarem o caudal na valeta. Ignoro se vislumbraram naquela correnteza o milagre das bodas de Canã, em que a água virou vinho, mas lembro-me dos gritos e da correria dos aldeões, surpreendidos com o tsunami de vinho que inundava a rua.
Quando ouvi a gritaria, fugi apavorado, pressentindo, vagamente, que algo de errado devia ter acontecido. Apareci em casa ensopado em vinho, com a minha mãe aflita a perguntar: Filho, que aconteceu, que aconteceu?
Naquela idade eu ainda era um pouco trapalhão a falar, mas respondi o melhor que pude: São os bucanos, mãe, são os bucanos do motor a fazer tututututu!

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