Se sabe ler e escrever então conhece a importância da escola e dos professores na alfabetização das crianças. Essa magia que junta caracteres avulsos para formar palavras e edificar ideias.
Hoje venho propor-lhe “A escola do primeiro dia”, uma história da minha infância para que recorde o seu primeiro dia de aulas.
#9 A escola do primeiro dia
No meu primeiro dia de aulas na escola primária a minha mãe entregou-me no santuário da palavra escrita. Levou-me para ser alfabetizado. Cruzei a porta da escola como num ritual de iniciação. Com esse passo escapava das trevas dos 50% de ignorantes iletrados que viviam em Portugal para penetrar no templo da luz e do conhecimento dos que sabiam ler e escrever.
Em casa já havia um analfabeto violento, o meu pai. Chegava.
Aprender a ler e escrever ia fazer de mim um ser preparado para escolhas esclarecidas. Sem o saber dava continuidade à tradição iniciada na Suméria há 5000 anos: juntar caracteres em tabuinhas de argila para arrumar ideias e contar histórias de vida. Fazer de mim um escriba, um decifrador de conceitos e abstracções pela prática desenvolta da leitura.
Tudo aquilo era novo para mim. Amedrontava ter de enfrentar as 26 letras do alfabeto, ordená-las em vogais e consoantes segundo a ordem das palavras a construir.
Amedrontava encarar as figuras de Craveiro Lopes, Salazar e Jesus, pendurados na parede numa rigidez austera. Vigiavam o nosso desenho das letras e os borrões que deixávamos no caderno.
A sala de aula tinha quatro filas de carteiras, uma fila para cada classe. Dona Maria, a professora, severa e exigente, sentou-me na fila dos recém-chegados: uns calçados outros descalços, uns de calças outros de calções remendados.
Um dia, algures no futuro, daquelas carteiras talvez saíssem advogados ou vendedores de parafusos, ortopedistas ou merceeiros, pilotos de avião ou varredores de ruas, serralheiros ou alfaiates, canalizadores ou carpinteiros, pedreiros ou motoristas de camião. Uns prósperos e bem-sucedidos, outros a lutar pela bucha e por um lugar ao sol. Uns com um propósito de vida, outros vivendo uma vida sem propósito.

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