Sabia que a globalização teve início no século XVI e não na década de 1980 do século XX? 

Sabia que os grandes globalizadores foram os navegadores portugueses dos séculos XV e XVI, ao estabelecerem relações comerciais mundiais em larga escala, com diferentes povos e culturas?

Leia a crónica “Chegada dos portugueses ao Japão”, e pasme com as realizações destes nossos antepassados.

Chegada dos portugueses ao Japão

Quando em 1543 os Nanbanjin (bárbaros do sul) – como os japoneses chamavam aos portugueses – chegaram a Tanegashima uma ilha no sul de Kyushu, os Xoguns que nunca tinham navegado para fora do Japão, ficaram impressionados. Aquela gente vinha do outro lado do mundo, falavam de povos, terras e costumes desconhecidos, e vinham armados com um arcabuz que cuspia fogo e não abatia apenas caça selvagem.

Os portugueses arribaram ao Japão com a receita do costume: comércio e evangelização, o soft power usado para os primeiros contactos. Se a coisa não resultasse havia sempre a artilharia de bordo para firmar negócios difíceis. Não foi o caso. Portugueses e japoneses trocaram promessas de comércio win-win, e entenderam-se bem. 

Quadro japonês pintado por Kanō Naizen mostrando uma Nau/Carraca portuguesa e comerciantes portugueses. Os portugueses controlaram o porto comercial de Nagasaki de 1571 a 1639. (Kobe City Museum, Japão - Domínio público).

Se tivessem ficado somente pelo comércio das sedas e móveis lacados, a coisa podia ter durado séculos. Meteram-se no comércio das almas e estragaram tudo. Desembarcaram Francisco Xavier e os jesuítas com a mania de que a minha religião é melhor que a tua, e a coisa descambou décadas depois.

Quando desembarquei no Japão em Outubro de 2024, 481 anos depois de António Peixoto, Francisco Zeimoto e António da Mota, descobri que as religiões predominantes são o Xintoísmo e o Budismo, bem mais complacentes que o catolicismo levado pelos portugueses. 

A Gueixa representa a arte da sedução, uma arte feita de cortesia, exaltação e bom gosto. É uma artista que se convida para festas e banquetes, para interpretar para o público as artes cénicas tradicionais. São peritas em música e poesia com vastos conhecimentos sobre estética e cultura japonesas. Junto delas acho que fiquei mais suave e atento, meditativo e muito zen.  

No passado feudal do Japão, Kyoto foi a cidade onde surgiram as Gueixas (Geiko). Há Gueixas em todo o Japão, mas as de Kyoto são consideradas mais sofisticadas e elegantes por causa do sistema de ensino e formação para Gueixas que existe na cidade.

Tanto a Gueixa (Geiko), como a aprendiz de Gueixa (Maiko), têm uma complexa rotina diária que envolve elaborados processos de maquilhagem, sofisticação de penteados, e arte de envergar o quimono. Nada é feito apressadamente. O tempo da Gueixa é feito de pausas e precisão de gestos. 

Na época, Tanegashima revelou-se uma ilha desabrigada, pouco adequada à ancoragem dos navios portugueses. Os comandantes das naus sentiam falta de um porto que protegesse as embarcações das tempestades na época das monções. Pediram ao dáimio Ómura Sumitada, permissão para se estabelecerem mais a norte, num recanto de costa abrigada das tempestades. 

Mudaram-se para uma baía interior, nas proximidades de uma aldeia de pescadores de nome Nagasaki, com excelentes condições para fundear as naus em segurança.

Gostaram tanto do local que negociaram com o dáimio uma concessão semelhante à obtida com os chineses em Macau, iniciando-se então um período de grande prosperidade, que os japoneses denominaram de «comércio Nanban». 

Nagasaki que na 2ª Guerra Mundial ficaria conhecida pelas piores razões, cresceu em tamanho e prosperidade, tornando-se no século XVI a porta de entrada do comércio português no Japão. 

Há quem diga que no bombardeamento atómico de 1945 morreram menos japoneses do que em Hiroxima, porque, ao contrário desta, erguida numa vasta planície, Nagasaki cresceu numa baía rodeada de montanhas. 

Os portugueses ao escolheram aquele local abrigado, selaram o futuro destino da cidade. A explosão atómica dispersou a radiação sobre Nagasaki de modo irregular, devido à orografia montanhosa. A cidade foi atingida, não de modo uniforme, mas com diferentes níveis de impacto e destruição.

Mas em 1580 não havia aviões nem bombas atómicas, havia caravelas, naus, carracas, audácia e atrevimento de um povo de marinheiros que, vindos do outro lado do mundo, ousaram enfrentar os mares. 

Os portugueses souberam aproveitar o facto de japoneses e chineses andarem de costas voltadas, com laços comerciais e políticos cortados. Coube-lhes, com os seus grandes navios negros – as carracas – serem seus intermediários, assegurando as trocas comerciais desejadas por uns e outros. 

Tela japonesa pintada por Kanō Naizen mostrando uma nau/carraca portuguesa no porto de Nagasaki, porto comercial português de 1571 a 1639. (Kobe City Museum, Japão - Domínio público).

As rotas de Lisboa, Macau e a carreira da Índia a partir de Goa, passaram a ser feitas por carracas de velas redondas, três mastros e borda alta, transportando até 2000 toneladas de carga. 

Foi a chegada deste tipo de navios que aumentou as trocas comerciais entre portugueses e japoneses. Nagasaki transformou-se numa próspera cidade, num intercâmbio de mútuas vantagens que durou até ao final da década de 1630.

 

Mas se o comércio com o Japão crescia, a evangelização da Companhia de Jesus e o seu controle sobre as populações, crescia também. Quiseram controlar o profano e o religioso, chegando por um breve período a deter o poder militar e administrativo sobre Nagasaki. Os dáimios de Kyushu acharam que era demais. O conflito instalou-se.

O dáimio Toyotomi Hideyoshi viu no cristianismo e na prática religiosa dos jesuítas uma ameaça à unificação e estabilidade do Japão. Temendo insegurança e tumultos, ordenou a expulsão de todos os missionários, acabando por dominar a cidade e ter Nagasaki sob o seu controle.

A expulsão dos missionários e a proibição do catolicismo condenou muitos religiosos à prisão, à tortura e à morte. Acabaram crucificados ou queimados na fogueira. A Igreja canonizou-os, chamou-lhes Mártires do Japão.

Memorial aos Mártires do Japão, em Nagasaki, torturados e executados pela sua prática religiosa em 1597, após o Japão ter proibido a religião católica. (Publicaçaão sob licença de Creative Commons Attribution - Non Commercial).

Apesar das convulsões, as trocas comerciais com os portugueses mantiveram-se. Desse encontro de povos ficou um relacionamento que perdurou no tempo, até aos dias de hoje.

A influência cultural dos portugueses no Japão estendeu-se por vastas áreas: no vocabulário, com a introdução de palavras portuguesas no modo de falar japonês, na divulgação de obras clássicas da literatura ocidental, na música, no canto gregoriano, nos instrumentos musicais como a flauta, o violino e o órgão.

No plano económico, sendo os navegadores portugueses os primeiros europeus a abrir o comércio do Japão ao mundo, houve desde cedo mútuos benefícios. 

Os portugueses levaram consigo as especiarias, o ouro, a prata, o açúcar, as amêndoas, o pão-de-ló, o tabaco, os têxteis e as armas de fogo que os dáimios copiaram às centenas.

O conhecimento científico introduzido no Japão pelos portugueses teve grande aceitação, sobretudo na construção naval, na ciência náutica, na cartografia e na medicina. 

O médico Luís de Almeida foi quem levou para o Japão a medicina ocidental. Fundou um hospital e a primeira escola de medicina, tendo ele próprio realizado as primeiras cirurgias. 

Ainda hoje existe na cidade de Oita, na ilha de Kyushu, um hospital com o nome de Luís de Almeida que é propriedade da Ordem dos Médicos do Japão. 

Quando se comemoraram os 450 anos da chegada dos portugueses ao Japão e a Nagasaki, os correios japoneses emitiram um selo comemorativo do encontro dos dois povos, onde se mostram duas grandes carracas a fundear na baía.

Mais tarde, em Portugal, os CTT também emitiram selos, celebrando a chegada dos Portugueses ao País do Sol Nascente. Conhecer a epopeia dos navegadores portugueses no Oriente através da filatelia, é também um acto de navegação e descoberta.

(Livro dos CTT completo: “Nanban-jin, os Portugueses no Japão”. Autor: Luíz Filipe Thomaz)

E porque o tempo era de comemoração, em Lisboa, a embaixada do Japão propôs plantar em Belém, frente ao Tejo, de onde os portugueses partiram para o Japão, um jardim de cerejeiras com 461 árvores naturais daquele país, uma por cada ano de relacionamento entre os dois países. 

A construção do jardim realizou-se graças ao protocolo entre a Associação de Amizade Portugal-Japão, a Administração do Porto de Lisboa e a Câmara de Lisboa, que se comprometeu com um subsídio mensal de mil euros para conservar e manter o espaço.

No Japão o amor dos japoneses pela cerejeira, a sakura zensen, é comovente, a época de floração das cerejeiras é uma festa de celebração e beleza, praticada com entusiasmo por toda a população.

Mas na edição de 08/09/2008 o Diário de Notícias noticiava que o Jardim das Cerejeiras Japonesas, inaugurado em Março de 2005, junto ao Museu de Arte Popular, em Belém (Lisboa), estava oficialmente morto. A Câmara nunca pagou a verba mensal para cuidar e manter o jardim. As cerejeiras estavam mortas, o relvado seco e o sistema de rega inoperativo. As cerejeiras secaram e nunca floriram, ao contrário da amizade entre japoneses e portugueses. 

Subscreva a newsletter

Preencha o formulário abaixo e receba todas as semanas histórias e novidades diretamente na sua caixa de e-mail.

*os campos assinalados são de preenchimento obrigatório