Já experimentou a excitação de viajar?

Digo-lhe que se trata de um anseio contido, um misto de desassossego e entusiasmo que me leva a encetar a viagem ainda sentado no sofá, imaginá-la em jeito de antecipação para lugares que só visito em sonhos.

Para mim, o Japão era um desses lugares: longínquo, exótico, diferente do mundo com que convivo no dia-a-dia. Foi tão impactante o que descobri na minha viagem ao Japão, que decidi partilhar consigo as memórias que trouxe da terra da deusa do sol: a deusa Ise.

Chamei-lhe Crónicas do Japão. Então cá vai.

No País do Sol Nascente

O Japão fica longe e eu tinha pressa em lá chegar. Dezasseis horas a sobrevoar a lonjura da Ásia deixaram as nádegas e as lombares a implorar por uma poltrona menos dura. A Boeing constrói aviões com cadeiras de pau para hobbits a viajar para a terra Média do Senhor dos Anéis, não para humanos crescidos.

Em Tóquio descobri que os japoneses são pessoas de baixa estatura mas constroem edifícios a rapar as nuvens. Celebram um passado de samurais e harakiri mas deslocam-se na vertigem do comboio-bala a 300 quilómetros por hora. São tímidos nos relacionamentos mas ousados a mergulhar em nu integral nos banhos colectivos de água termal, fervendo a 40 graus, deixando-os da cor do camarão cozido.
Adorei o Japão e os japoneses. A tradição e a modernidade.

O centro de Osaka lembra o cenário futurista do filme de Stalone, “Judge Dredd”, passado na mega cidade do ano 2139. Apesar do caos ordenado das multidões, espantei-me com a absoluta limpeza das cidades e a ausência de caixotes de lixo. Cada um leva o seu próprio lixo para casa, não o deposita nas ruas.

Adorei as gueixas e a cerimónia do chá.

Descobri a fragrância do saké gelado como bebida que acompanha a Sopa de Misso, a Tempura e o cozido Nikujaga, composto de carne, batatas e cebolas cozidas com molho de soja açucarado.

Quedei-me na sobriedade dos jardins zen e na harmonia da verde paisagem japonesa, pontilhada pelo vermelho dos Toriis Xintoístas. Adorei a gentileza dos japoneses adultos e as saias curtíssimas das raparigas jovens, parecendo personagens dos Mangás, as histórias da banda desenhada.

E comovi-me em Hiroshima. Muito.

Emocionei-me perante as fotos de silhuetas humanas vaporizadas a 3000 graus de calor pela bomba que caiu do B-29, em 6 de Agosto de 1945, às 8 horas e 15 minutos da manhã. Instintivamente espreitei o céu nublado onde despontou o Enola Gay com a sua carga de morte atómica. Desde então o imperador deixou de ser deus e o Japão renunciou ao exército imperial.

Descobri que no Japão só tsunamis e tremores de terra perturbam a quietude da deusa Ise e os campos de cerejeiras floridas. Uma harmonia celeste percorre o País do Sol Nascente.

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