Gustave Flaubert terá dito que “Viajar torna-nos humildes porque permite ver como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo”.
Com modéstia, hoje venho propor-lhe a leitura de Viagem ao outro lado do mundo, e reflectir o quanto podemos aprender com a descoberta de outros povos.
Viagem ao outro lado do mundo
Homero no seu poema “A Odisseia” narra a viagem de Ulisses vindo da guerra de Tróia, no seu regresso a Ítaca, a sua ilha natal. Nas Crónicas do Japão eu narro a minha viagem ao País do Sol Nascente, uma terra situada nas antípodas deste nosso rectângulo à beira do Atlântico.
Homero não era um organizador de viagens, e do Japão não consta que soubesse da sua existência, mas o que ele escreveu sobre os aborrecimentos de Ulisses no regresso a casa, não é diferente das arrelias de alguém que perdeu a mala ao viajar por uma dezena de fusos horários, alguém que exausto da viagem confunde a hora de dormir com o nascer do dia.
Os porões de galeras gregas, naus ou caravelas do século XV já não são sítio onde nos acomodemos para viajar, mas o desconforto tem semelhanças com o lugar acanhado na classe turística do avião onde nos sentamos.
Contudo, o desconforto da viagem é compensado pela oportunidade de descobrirmos pedaços desse remoto mundo onde chegaram os nossos antepassados dos Descobrimentos.


Há 481 anos, em Agosto de 1543, os navegadores portugueses estabeleceram o primeiro contacto com o povo japonês ao desembarcarem no sul do Japão, na praia do cabo Kadokura, em Tanegashima. Foram os primeiros ocidentais a aportar à terra de Cipango, como o Japão era conhecido nesse tempo.
Eu cheguei em Outubro de 2024, e desembarquei mais a norte, no aeroporto de Haneda, em Tóquio.


O Japão é um arquipélago formado por milhares de ilhas, mas nas quatro de maior dimensão, Hokkaidu, Honshu, Kyuushu e Shikoku, vivem cerca de 121 milhões de japoneses.
É muita gente junta.
Cercado pelo Anel de Fogo do Pacífico, o arquipélago japonês é regularmente assolado por tremores de terra e tsunamis causados pelo movimento das placas tectónicas. Mas nas semanas que passei no Japão, o único momento em que senti o chão mover-se de forma significativa, foi no jantar de comida tradicional japonesa em que nos serviram generosas garrafas de saké a acompanhar o repasto.

A aguardente de arroz tem esse efeito tranquilizador, deixa-nos com uma postura zen, própria de monge budista ou guerreiro samurai. Se o chão se agita sob os sapatos ficamos sempre na dúvida: será um tremor de terra? Será a bagaceira de arroz?

Subscreva a newsletter
Preencha o formulário abaixo e receba todas as semanas histórias e novidades diretamente na sua caixa de e-mail.
*os campos assinalados são de preenchimento obrigatório

